DEPOIS O LOUCO SOU EU

Escrevinhação n. 853, redigido em 01 de outubro de 2010, dia de Santa Terezinha do Menino Jesus.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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“É necessário conhecer seu próprio abismo/E polir sempre o candelabro que o esclarece”. Com essas belas e singelas palavras da lavra do poeta Murilo Mendes, ceifadas de seu “poema dialético” iniciamos essa nossa modesta reflexão. Mas, sobre o que versará nossa pena? Sobre que sobras e quais luzes as letras desenhadas irão bailar? Ora, sobre aquelas que habitam em nós e que olimpicamente desprezamos. As luzes de nossa razão e as sobras de nossa ignorância voluntária.

O abismo é uma metáfora muito apropriada para a nossa compulsão de fingir sermos conhecedores de algo, pois ilustra com grande clareza o que fazemos na maioria das vezes em que mentimos para os outros, enganando a nós mesmos, posando como suposta autoridade sobre isso ou aquilo. Seja em um boteco, em uma sala de aula ou em qualquer canto desta terra de botocudos, cavamos a nossa própria cova para nos enterrar, nos privar das luzes da razão. Mas, o quão fundo é a nossa cova? É só olhar pra cima e ver o quanto a luz do conhecimento apresenta-se em sua alcova de opiniões mui bem fundadas em seu ego inflado pela vaidade e aí terá uma boa percepção desta medida.

Fazer uma topografia desta cova, que na maioria das vezes não é nem um pouco rasa, é fundamental para nos libertar de nosso desconhecimento. Para que possamos sair do fosso que construímos para nos agrilhoar é indispensável que não apenas conheçamos o que não sabemos, mas principalmente, investigar o que imaginamos conhecer. Um exemplo extremamente ilustrativo do que estamos apontando é o que se convencional chamar de “direita” e “esquerda”.

Quando essas duas palavras são ditas, o que elas evocam são muito mais um compacto de sentimentos e impressões subjetivas (socialmente construídas) da realidade do que propriamente os fenômenos que estas deveriam evocar em nossa mente. Não sei se o amigo leitor já parou para pensar nisso, porém, a palavra “esquerda” é definida pelos seus partidários com todas as loas que eles julgam ser apropriado e, a palavra “direita”, por sua deixa, é sempre definida pelos militantes da canhota com todo direito de insultos e pré-determinações pejorativas que os esquerdistas julguem “verdadeiro”.

Falando o português bem claro: tal fato nos apresenta a evidente hegemonia ideológica que o marxismo exerce hoje no imaginário político e cultural de nosso país. Todos os temas, todos os assuntos e questões são sempre vistos e apresentados por um viés à canhota em nosso país. Aliás, não custa lembrar que não preciso ser marxista para pensar a partir dos moldes desta ideologia. Basta apenas repetir o que a atmosfera cultural lhe dita.

Tanto isso assim o é que expressões como “direitista”, “conservador” e “neoliberal” são utilizados como (i)legítimos insultos contra os desafetos político-ideológicos. Mas o que, exatamente, essas palavras querem dizer, em termos objetivos? Se formos sinceros responderemos apenas que o único significado que se apresenta às nossas vistas é o de um compacto de sentimentos confusos de um termo pejorativo utilizado levianamente para rotular os adversários e nada mais.

Se perguntarem-se sobre os nomes dos grandes teóricos da esquerda, a resposta facilmente virá aos lábios. Biltres que fazem a cabecinha da civitas brasilis como Karl Marx, Lênin, Trotski, Mao, Antônio Gramsci, Herbert Marcuse, Antônio Negri, Paulo Freire, Gutiérrez, Boff, Fanon, Heinz Dieterich, Chomsky e tutti quanti. Agora, se fosse perguntar aos ignorantes que se auto-intitulam “pessoas críticas” e que adoram rotular as pessoas com os seus chavões esvaziados de significado (tal qual são suas almas: estéreis de sentido), que nomes nos citariam? Que obras leram? Provavelmente niente, porque eles nunca leram um teórico conservador ou liberal e nem sabem a diferença que há entre um e outro, visto que, nem conhecem com a devida profundidade o que eles defendem.

Na verdade estes indivíduos não lêem e não estudam nada, mas fingem muitíssimo bem com a sua decoreba de palavras de ordem de seus grupelhos ideológicos. Tudo isso apenas com o lado esquerdo de seus cérebros, é claro. Certa feita, em um encontro repleto destas pessoas maravilhosas, “críticas” a um nível crítico, estava a ouvir todo aquele trololó sobre “democracia racial” e a obra de Gilberto Freire. Em meio ao entrevero, resolvi perguntar aquela perguntinha sacana: quem dentre vós já leu a obra de Gilberto Freire? Houve primeiramente um breve silêncio. Em seguida, ouviu-se um tímido não e, por fim, uma alma sincera confessou: “não lemos porque ela é muito densa”. Todavia, sem conhecê-la, todos a estavam condenando pelo que eles ouviram dos comentadores invejosos e sicofantas que, por sua deixa, são incapazes que construir algo, no mínimo, similar ao que fez o mestre de Apipucus.

Todo mundo fala que a “direita” é isso ou aquilo, entretanto, de que direita estamos falando cara pálida? Da direita rotulada pela esquerda ou da direita pensada pelos seus teóricos? Que sacanagem, não é mesmo? Pois é, se formos capazes de, francamente, assumirmos que fomos e somos feitos de bobos na intimidade de nossa alma pela desinformação semeada em nós devido as facilitações geradas pela nossa desídia intelectual, estaremos dando um passo significativo para nos libertar de nossa alcova mental.

Pax et bonum
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