O OLHAR PERDIDO DA CORUJA SOBERBA

Escrevinhação n. 848, redigido em 07 de setembro de 2010, dia de Santa Regina e de Eugênia Picco - irmã religiosa.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Todo santo dia quando volvemos nossas vistas e afinamos nossos ouvidos para prestar atenção no que hoje se convencionou, por um sério problema de mau gosto, chamar de educação, confesso que uma torrente de sentimentos abate meu coração em um misto de tristeza e fúria, de desgosto e impotência. Naturalmente que externar tal turbulência em nada contribuiria para resolução do cenário que testemunhamos, do mesmo modo que cultivá-los no âmago do pulsar do peito. Aliás, são em momentos como este que Goethe nos ensina que é urgente ter paciência. Paciência e tranqüilidade de espírito para sermos capazes de não nos contaminarmos com os fétidos ares que nos repugnam.

Falar sobre isso em um único artigo seria literalmente um trabalho impossível, visto a quantidade ululante de dejetos que compõem o drama. Entretanto, similar a um bom laboratorista, podemos separar as fezes epistêmicas em inúmeros tubos de ensaio devidamente etiquetados e analisá-los um a um.

Dito isso, vejamos a primeira amostra. A mais grave, penso eu. É muito comum testemunharmos entre educadores um forte tom de leviandade quando estes falam a respeito de assuntos religiosos, em especial no que se refere a história do Cristianismo e com relação a Santa Madre Igreja. Detalhe, meu caro: esses educadores que levianamente emitem suas pútridas opiniões sobre essa Confissão em especial, e sobre as demais de um modo geral, o fazem com aquele ar de douto fingimento.

Certa feita, perguntei a um amigo que atua na mesma seara se ele já havia lido e estudado o Catecismo Romano. A resposta foi negativa. Perguntei também se ele estudava regularmente o texto da Sagrada Escritura. Naturalmente, a resposta também foi negativa. Porém, mesmo assim, ele estava cheio de opiniões sobre a doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana. Da mesma forma que a maioria absoluta dos professores da área de humanas, inclusive e principalmente os que se apresentam como supostos Católicos.

E é claro que esses indivíduos sentem-se sumamente ofendidos quando são lembrados disso por essas inquirições. Eu de minha parte, sentir-me-ia apenas envergonhado. Como de fato sinto-me até os dias atuais, visto que, em minha porca juventude eu era um desses professores incultos e arrogantes. Todavia, ainda nestes idos pretéritos, defrontei-me com essa inquietação quando adquiri o Catecismo e flagrei-me que havia ali um universo inteiro que eu desconhecia e que soberbamente opinava como se fosse um grande conhecedor. Envergonhei-me em minhas indagações solitárias diante do tribunal de minha consciência.

De mais a mais, o problema não é ofender alguém ou algum grupo falando a verdade. O problema capital é o quanto que a Verdade é ofendida por nós, insultada por nosso fingimento e por nosso respeito descomunal pelos simulacros de civilidade edificados a partir da mentira deliberada construída na base de uma superficialidade atroz que apenas tem credibilidade nos dias hodiernos porque praticamente todos têm sua existência de papelão firmada neste nível pífio de profundidade.

Isso mesmo! Se você é um desses que se sente ofendido com as missivas deste anódino escrevinhador, largue mão de frescura e encare a si mesmo com a necessária coragem e decência e apenas pergunte a si mesmo se você conhece minimamente as 744 páginas que compõem o referido Catecismo (que não é o de Trento e nem o de São Pio X). Tenha coragem e pergunte-se ainda se você realmente estuda devidamente as Páginas Sagradas. Se as respostas para estas perguntas forem sinceras e negativas sinta-se mais envergonhado que insultado, porque os insultos que você proferiu frente a sua consciência e perante Deus são bem mais sérios.

Lembramos que essas leituras indicadas não são o supra-sumo sobre essa confissão religiosa em especial, mas sim, o mínimo que uma pessoa deve conhecer para começar a construir um ponto de vista sobre o tema que mereça ser levado em consideração. Mínimo este que se faz ausente entre os críticos dos dois mil anos de tradição.

Diante de uma situação como esta, podemos tomar dois caminhos. O primeiro é simples: começar a estudar aquilo que até então fora desdenhado por nós. O segundo, mais simples ainda: continuarmos a fingir que nada do que foi dito e ecoado nos átrios de nosso íntimo tenha alguma coisa haver conosco. Ou seja: basta apenas continuarmos a agir como uma criança cheia de mimos.

Sim, é difícil nos desmentirmos para nós mesmos, mas é somente assim que podemos nos libertar de nossa ignorância. Por um ato de vontade crescemos em espírito e verdade. Através de um ato de vontade, nos fechamos em nossa alcova putrefaz e sombria. Você é que sabe. Ah! E se o fingimento é sua regra existencial não se preocupe. Essa é a regra da sociedade brasileira. Todos irão, como sempre, fingir acreditar em sua pessoa da mesma forma que você finge acreditar em si.

[continua]

Pax et bonum
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