O OLHAR PERDIDO DA CORUJA SOBERBA – parte II

Escrevinhação n. 851, redigido em 25 de setembro de 2010, dia de Santa Aurélia, Santa Neomísia, Santo Alberto, São Firmino e São Cléofas.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Necessitamos de um grande conhecimento só para nos apercebermos da enormidade da nossa ignorância". (Thomas Sowell)

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O quanto conhecemos realmente a nossa ignorância? O quanto, realmente, conhecemos o que supostamente julgamos saber? Estas são duas perguntas capitais para todos aqueles que pretendem realmente crescer em espírito e verdade. Aliás, são com essas pequenas perguntas que se deve começar qualquer investigação, em especial, aquelas em que iremos devotar um grande interesse pessoal no que estará sendo investigado.

Para ilustrar o que pretendemos apresentar nesta parva missiva, pedimos licença às vistas do amigo leitor para que possamos recorrer a um pequeno exemplo. Um exemplo não apenas didático e de fácil empatia para aqueles que têm ao menos um pingo de sinceridade na têmpera do aço de sua alma. É sobre nossas escolhas a serem feitas neste pleito eleitoral.

Para tanto, não pretendemos levá-lo a inclinar-se a aderir ao candidato “x” ou “y”. Nosso intento é outro. É justamente chamar a sua atenção, meu caro Watson, para que volva suas vistas à urgência da evocação destas duas perguntas no âmago de seu ser. Dito isso, partamos diretamente para o ponto do conto: pense, melhor, anote em uma folha de papel o nome de seus candidatos para os cargos que estão sendo disputados neste pleito. Feito isso, pergunte a si mesmo e, se possível, anote, o que você realmente sabe a respeito dos poltrões listados? Indague-se sobre o que você ignora a respeito dos figurões que estão, nos últimos dias, sendo o pomo de discórdia em seu coração? Provavelmente sabemos muito pouco, apesar de posarmos como um profundo conhecedor da vida dos mesmos, da intenção deles e das plataformas defendidas. Aliás, apesar de todos estes pesares, julgarmo-nos grandes entendidos sobre a atual conjuntura política de nosso país mesmo sem ter dedicado o merecido tempo para realizar uma reles análise.

Mesmo assim, decoramos algumas frases de efeito sobre um e outro assunto. Repetimos um slogan aqui e outro acolá sobre determinados temas e, é claro, papagaiamos um amontoado de fofocas e factóides miúdos como tudo o mais que paira nesta nação em que os “cidadãos” tomam quase que todo o tempo de suas conversas para parlar sobre assuntos que dizem amar de coração e que, ao mesmo tempo, desdenham, sem dar a atenção mínima para que a decisão a ser tomada seja, como se diz por aí, “consciente”.

Mais patético que isso tudo é o que há em nós que ignoramos na hora em que fazemos nossas escolhas. Que ignoramos e que, como de costume, fingimos não ignorar. Todos apresentam as justificativas mais nobres possíveis e imagináveis para justificar as suas escolhas, porém, ocultam de si mesmos e dissimulam dos demais, que em seu gesto de preterição existem claros interesses de ordem pessoal, grupal, corporativo, em fim, que há uma ordem de interesses não tão nobre quanto pretendemos aparentar.

As intenções humanas são encobertas por inúmeras camadas que na maioria das vezes desconhecemos simplesmente porque ignoramos o exercício do auto-conhecimento e, em outros casos, por pura canalhice congênita advinda de nosso desconhecimento sobre as sombras que habitam o nosso ser e que, por isso mesmo, se assenhoram de nossa alma, corrompendo o nosso caráter com a conivência de nossa pífia e anêmica vontade viciado pelo nosso péssimo habito de auto-engrandecimento.

Há uma frase sempre repetida pelo Dr. Gregori House que é a chave de todos os episódios da série que leva o seu nome e que, no mundo real, seja em um ano eleitoral ou não, está sempre impressa nas meninas de qualquer olhar humano: “todo mundo mente”. Mentimos para os outros, mas, principalmente, mentimos para nós mesmos para que não nos assustemos com quem realmente somos.

Não entenda isso como sendo um insulto, pois insultuoso é o estado em que se encontra a nossa sociedade e, conseqüentemente, os caminhos que os indivíduos estão trilhando. Estamos tão preocupados em parecer bons moços que nos esquecemos por completo do que realmente importa, do que necessariamente deve ser levado a sério por nós. Tememos tanto desagradar nossos pares que preferimos abdicar da verdade para simplesmente nos sentirmos seguros e aceitos por aqueles que, tanto quanto nós, ignoram a si mesmos e necessitam de alguém semelhante para que aperte a sua mão e diga, em seus ouvidos, que têm razão em seu devaneio para que, deste modo, essa aprovação lhes substitua a consciência ferida.

Por fim, estamos todos em um teatrinho de sombras onde os vultos andam de lá para cá como baratas tontas a procura das migalhas que podem, por ventura, cair do palco onde toda a palhaçada está sendo encenada. Obviamente que nenhum de nós se reconhece como sendo o grande palhaço desta história, visto que, todos nós, somos “cidadão críticos”, não é? Críticos que pouco sabem sobre os motivos que nos levam a agir de maneira tão leviana sobre as nossas (i)reais intenções. Se essas são realmente nossas.

Pax et bonum
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