ENTRE RENÚNCIAS E DISPOSIÇÕES

Escrevinhação n. 850, redigido em 20 de setembro de 2010, dia de Santa Cândida e de Santo André Kim Taegon e companheiros.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas”.
(Johann Goethe)

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Lemos na Regra de São Bento, especificamente em seu capítulo XLVIII, que: “A ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com a leitura espiritual”. É por essas e outras que minha vista encontra verdadeiro deleite nas obras pretéritas de nossa civilização.

São Bento de Núncia quando ministrava este ensino de sua regra para seus monges, nos lembra, hoje, um ponto basilar que acaba por definir o sentido da vida humana. O que fazemos em nossas horas de “tempo livre”? Isso mesmo! É comum vermos e muitas das vezes nos flagrarmos com queixumes do tipo: “Ah! Eu não tenho tempo pra nada! Por isso nada da certo em minha vida..e blá blá blá”. Ledo engano, digo, auto-engano.

Tempo livre, todos temos, porém, cada um de nós o preenche com aquilo que julga ser prioridade em sua vida que, infelizmente, na maioria absoluta das vezes, não é nenhuma atividade edificante que mereça alguma dose de respeito.

Na verdade temos uma grande quantidade de tempo livre que na maioria das vezes é desperdiçada com atividades vulgares ou mesmo com um ócio nada criativo. Para aqueles que estão familiarizados com a obra de Domenico De Masi, devem conhecer o cálculo aterrador que o mesmo nos apresenta sobre a quantidade de tempo livre que dispomos. Se não, então vejamos: dos 20 aos 60 anos de idade cada um de nós irá viver 350.640 horas. De todo esse tempo, iremos trabalhar, aproximadamente 76.480 (sem contar os possíveis feriados). Some a isso, aproximadamente, 116.880 horas de sono (se dormirmos 8 horas por dia). Mais 29.220 horas que utilizados nos cuidados pessoais (duas horas diárias todo santo dia). Bem de todo esse tempo, entre os 20 e 60 anos de idade nós temos, em um cálculo pessimista, 128.060 de tempo livre muitíssimo mal utilizado e parvamente administrado. Digo pessimista, por que o do sociólogo citado é bem mais otimista do que eu. Isso que não estamos colocando no cálculo o tempo que teremos após a aposentadoria que, se basearmos nossa conta na expectativa de vida do homem moderno teremos mais 81.760 horas livres para ocuparmos com algo. Mas, com o quê?

Desde modo, se refletirmos sobre estes números à luz dos ensinamentos presentes na regra de São Bento iremos ver o quanto nos encontramos perdidos e confusos no uso e desuso que fazemos de nossos dias. Quando estamos entregues aos nossos afazeres profissionais sabemos o que devemos fazer durante àquelas horas. Estas têm um claro significado em nossa vida. Todavia, quando estamos livres destas obrigações, o que fazemos com o tempo que está a nossa disposição? Ocupamos, como dizem os populares, com “qualquer coisa”, pois estas horas não tem uma clara significação em nossa vida.

Bem, a resposta para esse problema (o que fazer com o tempo livre?) está intimamente ligado a uma pergunta simples e, por isso mesmo, fundamental: qual é o sentido, o propósito, de minha vida? Como tal pergunta é literalmente desdenhada, colocada para escanteio, acabamos por preencher o nosso ócio com qualquer pacova chinfrim. Putz! Confesso que chega ser deprimente vermos o trem fuçado que a sociedade atual se tornou e, conseqüentemente, no que nos tornamos por simplesmente esvaziarmos nossa vida de sentido.

Olha, e o que estamos falando aqui não é em procurarmos ocupar o nosso tempo em alguma nova qualificação profissional (que, em si, não é ruim), mas sim, em aprendermos que existe um universo inteiro a ser explorado e aprendido por nós que não está ligado umbilicalmente com o nosso trabalho. Um exemplo muito simples: dedicar uma hora por dia ao estudo dos ensinos de sua confissão religiosa. Isso realmente seria algo que daria uma dimensão significativamente nova em sua vida. Ou então, dedicar-se a leitura da literatura clássica, ou nacional, ou poesia. Se preferir, listar e assistir filmes e, porque não, estudar um pouco sobre a sétima arte. Aprender uma arte marcial, ou entalhe, quem sabe pintura, uma língua estrangeira talvez e, imaginem, na mais magnífica das hipóteses, fazer tudo isso com as pessoas que você ama (com seus amigos e com sua família).

Em fim, tudo isso depende com qual sentido você pretende moldar a sua vida, qual sentido você quer dar a sua existência. Quanto ao tempo, tanto eu como você temos de sobra, acreditemos ou não nisso. Tudo depende ao que você irá renunciar e o que você irá fazer e viver no tempo que é só seu e de ninguém mais, se você o quiser.

E é só.

Pax et bonum
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