DA PÁTRIA CELESTE

Escrevinhação n. 846, redigido em 16 de agosto de 2010, dia de São Roque, Santo Estevão da Hungria e São João Francisco Régis.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Uma só coisa importa: comportar-vos como cidadãos de maneira digna do Evangelho de Cristo". (Filipenses I; 27)

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Frithjof Schuon, grande sábio islâmico, nos lembra que a função essencial da inteligência humana é o discernimento entre o real e o ilusório; e a função da vontade é apegar-se ao que é permanente e real. Segundo o mesmo, esse apego e esse discernimento são a quintessência da sabedoria. Tais considerações vão de encontro ao que nos diz o Verbo Encarnado quando proclama que “não é apenas de pão que viverá o homem”. Cada um de nós não nasceu para perecermos e desaparecer na decomposição das moléculas que compõem o nosso corpo. Cada um de nós é um ser imortal, criado para glória celeste, apesar de decaídos pelo pecado e tendo nosso discernimento turvado, nossa vontade viciada por medirmos a realidade unicamente pela dimensão terrena, desdenhando a realidade celestial que é permanente.

Todos nós, Cristãos, vivemos como exilados neste mundo, pois, nenhuma pátria neste vale de lágrimas a nós pertence. Nossa cidadania a ser vivida e testemunhada em qualquer rincão do globo é esta, a da Jerusalém Celeste. Todavia, vivemos em um mundo tão imerso em valores materialistas, imanentistas, hedonistas, relativistas que nos esquecemos dia após dia de nossa filiação divina, passando a agir e a tomar decisões dentro do que Dinesh D’Souza, pesquisador do Hoover Institution, denomina como sendo um ateísmo prático. Ou seja: o indivíduo declara-se um fiel, freqüenta os ritos de sua confissão religiosa, porém, em seu dia a dia age como se Deus não existisse. E é assim que, infelizmente, tomamos nossas decisões em nossa vida, desde as mais corriqueiras até as mais graves.

Quando tomamos em mãos os documentos do Concílio Vaticano II, em especial, neste caso, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, lemos que “[...] a Igreja não pode deixar de reprovar, dolorosamente, com toda a firmeza, como reprovou até agora, aquelas doutrinas e atividades perniciosas que contradizem à razão e à experiência humana universal e privam o homem de sua grandeza inata”. No caso, o documento se refere ao materialismo e ateísmo economicista e marxista de todos os matizes (conforme se lê na 16ª. nota de rodapé do referido documento) que reduzem a compreensão do humano e, conseqüentemente, nos distancia da finalidade de nossa existência que, absolutamente, não é nem carnal e muito menos mundana.

Ainda o texto conciliar nos lembra que devemos, urgentemente, tornarmo-nos homens e mulheres que se dediquem a compreensão da Verdade, detentores de uma personalidade forte. O indivíduo se fortalece como pessoa quando se dedica vivamente aos seus, quando abraça a sua comunidade encontrando o seu lugar nela, assumindo a sua responsabilidade de maneira abnegada. Não a procura de vanglórias, mas sim, desejando apenas ser um anônimo e pequeno instrumento da Vontade de Deus, permitindo a edificação de Seu reino em nosso coração tal quais os luminosos exemplos de São João Maria Vianney, de São Tomás Becket, e de todos os Santos de Deus.

Por essa razão que mais do que nunca nós devemos clamar a Santíssima Trindade para que nos infunda uma profunda fortaleza e uma impávida coragem moral para agirmos de acordo com nossa Fé, pois é esta que deve dar forma ao nosso caráter e não os preceitos ignóbeis do mundo atual.

É fundamental que vivamos nossa fé de maneira profícua. Lembramos essa questão tão simples porque ela é sumamente desdenhada devido as influências abomináveis citadas a cima. Hoje em dia, a Fé passou a ser sinônimo de crença cega, desvinculada da razão. Todavia, não é isso que Deus quer de nós. Quem quer isso é o mundo moderno com suas intrigas sórdidas. Ter fides (fé), meu caro, é esforçar-se em manter-se fiel as promessas de Nosso senhor. É disso que nossa sociedade hodierna carece, de que cada um de nós lute vigorosamente contra esses valores que querem não apenas dar forma as nossas decisões, mas perverter a natureza humana.

Pode parecer ao amigo leitor que essa conversa toda foi um tanto que fora de ritmo. Entretanto, creio que não sejam estas palavras que estão fora do tom, mas sim, as veredas que temos trilhado na sociedade contemporânea. Nossa sociedade está se apartando cada vez mais dos valores que nos religam a nossa Pátria Celeste, procurando nos agrilhoar a anti-valores que reduzem a nossa dignidade originária através de pseudo-esperanças mundanas como nos adverte o Papa Bento XVI em sua Encíclica Spe Salvi. Por isso é imprescindível que sejamos capazes de discernir a realidade divina das ilusões mundanas.

Por isso, sou franco em dizer que pouco importará sufragar ou não nosso voto nas urnas moderninhas sem levarmos em conta nossa real cidadania. De que adianta ganharmos a leviandade do mundo se perdermos a nossa alma? Votar é apenas um diminuto detalhe. Viver e dar testemunho de Cristo são o cerne de nossa cidadania. De mais a mais, como nos ensina Santo Agostinho, “ainda que fujas do campo para a cidade, ou da rua para tua casa, tua consciência vai sempre contigo. De tua casa só podes fugir para teu coração. Porém, para onde fugirás de ti mesmo?” Pra onde? É essa a questão que importa. O resto não passa de um de flácido colóquio de pusilânimes e misantropos presunçosos e nada mais.

Pax et bonum
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