PARTILHA SOLITÁRIA EM POUCAS PALAVRAS – parte I

Escrevinhação n. 844, redigida em 30 de julho de 2010, dia de São Pedro Crisólogo.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Há um sapientíssimo sermão proferido por Santo Afonso de Ligório sobre “o milagre do surdo-mudo” (Marcos VII; 32). Porém, antes de meditarmos sobre as palavras do doutor zelosíssimo, permitam-nos fazer um parêntese que, por sua deixa, julgamos ser mais do que necessário. Sabemos que para muitos, atualmente, é um tanto que estranho iniciar uma reflexão a partir de uma passagem Bíblica juntamente com os ensinos de um Santo. Porém, a estranheza não está nesta forma de proceder, mas sim, no desconforto que tal procedimento causa ao entendimento de muitos.

O homem do ciclo moderno desdenha orgulhosamente o fato de que as Letras Santas não devem ser interpretadas, mas sim, que estas se fazem presentes entre nós para que interpretemos a nossa vida, as vias de nossa alma a partir da luz de Delas emana. A Palavra Sacra é infinitamente maior que o nosso entendimento, profundamente mais profícua que a nossa inteligência. Tal observação não significa que ela seja obscura, mas sim, que ela é a luz que se apresenta para as pessoas para que possam conhecer os cantos e recônditos mais obscuros da alma.

Por essa razão, São Jerônimo nos diz que se amarmos a Bíblia a sabedoria te amará. “Ama-a e ela te guardará. Honra-a e ela te abraçará”. Isso era e é o que as almas santas fazem: não se apropriam das Santas Letras de maneira leviana como comumente fazemos, mas sim, se deixam ser tomados por Elas e passam a viver de acordo com o que essas Luzes apontam para as suas luzes.

Por isso, perguntamos: quem entre nós procura proceder desde modo? Quem com freqüência diuturna dedica-se não apenas à leitura das Letras Inspiradas, mas permite que elas passem a fazer parte dos versos de seus dias? Bem, era isso que os Santos faziam e fazem e é isso que temos de aprender com eles. É essa maneira de viver que faz essas almas exalar em seus passos e palavras as mais agradáveis fragrâncias da Divina Sabedoria.

E é neste ponto que gostaríamos de partilhar as palavras sapientes de Santo Afonso de Ligório. Pergunta-nos ele: quem são os surdos-mudos curados pelo Verbo Encarnado? Somos nós em nossa surdez e mudez espiritual. Essa se manifesta de uma maneira distinta da carnal. Por paradoxal que possa parecer, esse tipo de deficiência dá-se devido à incapacidade de nos silenciar em nosso mundo interior.

Ouvimos as palavras verdadeiras. Muitas das vezes temos a realidade se apresentando de maneira objetiva e clara para nossas vistas, porém, o nosso entendimento se encontra inflado com toda ordem de ilusões advindas do espírito mundano que se alimenta de nossas impressões subjetivas, de nossas opiniões, de tudo que é estranho a Verdade. Somos surdos por não sermos capazes de compreender os sinais que a realidade (interior e exterior ao nosso ser) nos apresenta. Tornamo-nos mudos por não conseguirmos comunicar tudo o que há em nós e de captar o que está a nossa volta por prendermo-nos em demasia ao que é ilusório e transitório como se esses elementos fossem eternos e reais.

Tornamo-nos surdos espiritual e intelectualmente por carência de sinceridade. Como nos lembra Santo Afonso, nos escondemos da confissão de nossos pecados, ocultamos estes de nós mesmos em um pífio ato de autopreservação que, no fundo, apenas corrobora com nossa total degeneração.

Ora, a confissão que nos referimos nestas linhas não é tão só aquele momento em que estamos diante de um Sacerdote, mas sim, àquele momento em que estamos diante do Sumo Sacerdote que ilumina a nossa consciência quando nos entregamos ao necessário exame que fazemos de nossa vista no silêncio e na solidão de nosso íntimo.

Se nos esquivamos do ato de meditar, de refletir com franqueza sobre quem nós realmente somos, estaremos, gradativamente, obstruindo a audição de nossa consciência. Procedendo por essa via, acabaremos não mais nos arrependendo francamente de nossas faltas e dívidas, mas sim, justificando-as como se estas fossem necessárias. Pior! Como se elas fossem inevitáveis. Ou seja: justificamos nossos erros robustecendo nossas fraquezas.

Examinar a consciência com vistas a elevar nosso ser à contemplação da Verdade, da verdade sobre nós. Eis aí o ponto basilar de toda reflexão, abandonando nosso ego enquanto medida de todas as coisas e adotando a Verdade, o Verbo que se fez carne como medida de todas as coisas, inclusive de nossa pessoa. Eis aí a coluna que tanto falta para o nosso entendimento e que abunda no olhar, no ouvir e no falar de todos os Santos de Deus que sabem aceitar a Sabedoria Divina como luz vivificante da inteligência.

Endireitando nosso pensamento por essa vereda conseguimos compreender com clareza as palavras de Santo Agostinho que em suas preces pedia a Nosso Senhor: “Escrevei, Senhor, vossas chagas em meu coração, para que nelas eu leia a dor e o amor: a dor, para suportar por vós todas as dores; o amor, para desprezar por vós todos os amores”.

Que o Cristo, Verbo Encarnado que revelou o homem para a humanidade, nos auxilie na compreensão da humanidade que há em nós, do homem que devemos nos tornar para sermos verdadeiramente quem devemos Ser. Não mais uma medida diminuta de nosso umbigo, mas sim, edificado pela medida Daquele que é o sustentáculo da realidade.

Pax et bonum
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