E QUANDO A SEMENTE GERMINAR?

Escrevinhão n. 840, redigido em 15 de julho de 2010, dia de São Boaventura, São Vlademir de Kiev e do Bem-aventurado Inácio Azevedo e Companheiros.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Quem diz verdades perde amizades".
(Sto. Tomás de Aquino)

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O ofício professoral nunca foi e, provavelmente, nunca será uma empreitada destinada para almas desfibradas, fragilizadas. As rudezas que imperam neste ofício são muitas das vezes desconcertantes. Todavia, como poderia ser diferente? Se educar uma pessoa que deseja ser educada não é tarefa fácil, quem o diga educar uma pessoa que não o deseja isso e que a sociedade, sutilmente, lhe diz que ele tem direito a isso. E, tal direito, deve ser respeitado, não é mesmo?

Sejamos francos: o critério vigente para aprovação de um aluno em nosso sistema de ensino é o mínimo relevante de mediocridade dissimulada e olhe lá. Pode parecer grosseiro o que afirmamos nestas linhas, entretanto, é a mais pura realidade. Realidade esta conhecida por todos nós. Gostemos ou não de enxergar o que está em nossa volta este é o quadro.

Ilustrando o que apontamos linhas acima, lembro que, certa feita, uma professora cansada deste fingimento reinante no sistema educacional, disse, com ironia, dias antes do conselho de classe de sua Instituição de ensino, o seguinte: “[...] você tem que ver os progressos obtidos pelos alunos! Na quinta série ele não sabe ler (analfabeto funcional, ou mais), mas quando ele chega à oitava série ele já sabe enxerga! E, se bobear, chegando ao terceiro ano do Ensino Médio, quem sabe ele aprenda a te escutar!” E assim estamos. Quantas e quantas vezes alunos e mais alunos não foram aprovados sem o devido mérito nas últimas décadas? O número é significativo. Basta olhar os APC (aprovado por conselho de classe em duas, três, quatro ou mais disciplinas) que constam nos resultados finais.

De mais a mais, o que torna essa situação uma tragicomédia é o fato de que os elementos que apresentam essa lengalenga de “analisar o contexto do aluno” esquecem-se de estabelecer um critério objetivo de aprendizagem. Isso mesmo! O fato de ele viver em um determinado contexto não é um critério de avaliação, mas apenas uma variável entre tantas que pode ou não influir no resultado. Provavelmente os proponentes destas “coisas” que eles chamam de “concepção pedagógica” nunca pararam para pensar nesta sutil diferença.

E são essas “concepções” que estão dia após dia afundando mais e mais não apenas o sistema educacional, mas toda a sociedade. Hoje estamos plantando essa tosca semente daninha. Amanhã (e esse amanhã está cada vez mais próximo), estaremos colher os frutos que estão sendo plantados. Hoje esses jovens que estão sendo (des)educados serão os profissionais que estarão à frente da sociedade. E, como nos lembra o saudoso Rui Barbosa, “os maus alunos serão maus professores, que, por sua vez, serão péssimos líderes”.

Por fim, resumindo essa opereta, lembro aqui apenas uma breve passagem escrita pelo educador Gilbert Highet, em seu livro A ARTE DE ENSINAR (5ª. Ed.; 1967), onde esta hercúlea alma nos diz que é: “[...] uma tortura despender as energias de uma vida, dia a dia, na tentativa de estimular o gosto pelo estudo e o apreço pelas coisas mais belas e importantes do mundo a um grupo de jovens corrompidos, bobos mal-educados, pretensiosos ou ameaçadores, desatentos ou conversadores, cujos ideais de vida se repartem entre ser gangster, jogador de futebol, ou mulher divorciada em Hollywood. Tem-se a impressão nesse caso, de uma cena de transfusão em que o sangue generoso do doador caia no chão, para escorrer pela sarjeta”.

Exagero? Creio que não. Apenas convidaria para que essas almas sebosas que adoram falar de educação colocassem os seus formosos pesinhos em uma sala de aula por um ano e, obviamente, apresente-se um resultado substancial, com crescimento qualitativo na formação dos mancebos e não apenas uma mera exposição de dados estatísticos duvidosos. Aí, meu caro Horácio, é que eu quero ver até onde vai essa lengalenga de bom-mocismo fingido que toma conta dos defensores deste populismo pedagógico que pune o mérito e premia a desídia intelectiva, motivando o desânimo e desestimulando a perseverança e a dedicação abnegada.

E tenho dito.

Pax et bonum
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