OUTROS CONSELHOS DESDENHADOS – parte III

Escrevinhação n. 833, redigido em 21 de maio de 2010, dia de Santo Eugênio de Mazemod e dos Bem-aventurados e Manuel G. Gonzáles e Adílio Daronch.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Eu cumpro o meu dever. Os outros seres não me inquietam”. (Marco Aurélio)

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Arrependo-me de não ter deitado minhas vistas antes nesta jóia que é esse livreto do último imperador Antonino que sob Roma fez imperar seus decretos. Não tanto pelo conteúdo específico do mesmo, mas sim, pela maneira sincera que ele transcreve os seus conselhos nas suas páginas. Sinceridade esta incomum nos hodiernos dias.

Convencionou-se chamar de filosofia nestas terras de Pindorama algo que beira simplesmente a demência coletiva auto-sugerida e nada mais do que isso. Trocando por dorso, a opção filosófica que impera em nosso país é simplesmente uma caminhada ululante repleta de fingimentos histriônicos que tem por objetivo o culto de si e de sua insanidade travestida de sabedoria, fantasiada com alguns míseros trapos retóricos, palavras vazias, cacoetes mentais, termos chaves que fazem com o indivíduo que a isso adere sentir-se supostamente superior aos demais.

Por essa razão que quando lemos as palavras que seguem abaixo, tiradas diretamente da lavra de Marco Aurélio, compreendemos o quanto que o fazer filosófico distanciou-se do que originariamente lhe conferia a dignidade que lhe era devida. Diz-nos o sábio César que: “Quem ama a glória situa o seu bem numa atividade alheia”. Conhecer-se a si mesmo. Eis aí o ponto nevrálgico do ensinamento Socrático, eis a sentença luminosa que brilhava nos umbrais do Oráculo de Delfos. Eis aí a grande ausente no que se convencionou chamar de filosofia na atualidade.

Entretanto, não é a essa advertência que nos é feita por essa augusta alma que gostaríamos de chamar a atenção. Não tão só a essa advertência, mas sim, a algo que ele faz logo no primeiro livro de suas MEDITAÇÕES que é tão só e simplesmente listar o nome das pessoas que contribuíram de alguma forma para que ele fosse quem ele havia se tornado, apontando os ensinamentos que lhe foram ministrados por estes, direta ou indiretamente. Através de palavras ou de atitudes exemplares.

Veja só que coisa simples e majestosa. Ao invés de doutrinação materialista, niilista, marxista e politicamente-correta que infecta nossas Instituições de Ensino poder-se-ia ensinar, em um primeiro momento, aos nossos mancebos a rastrearem (i) o que eles sabem, (ii) em que medida sabem, (iii) de quem aprenderam e (iv) como aprenderam o que os torna quem eles são. Tal exercício, em resumidas palavras, nada mais é do que a apresentação de uma prática primeira de autoconhecimento. Estariam os jovens meditando sobre a sua própria vida e sobre a forma como a sua alma foi sendo influenciada pelos mais variados elementos externos e pelas mais distintas pessoas. Fazendo isso, poderá ela, conhecendo-se melhor, corrigir os erros que podem estar deitando raízes em seu caráter e aprofundar mais significativamente as virtudes que ele deseja que se assenhorem de sua alma e, por fim, fazer-se mais senhor de sua vontade e de suas paixões através da retidão de sua consciência.

Além de tudo isso, tal exercício levará a tenra alma a aprender a cultivar no âmago de seu ser um profundo sentimento de gratidão para com os seus próximos. Gradativamente, estará ele reconhecendo que no pouco que há de bom em seu ser a presença edificante de pessoas que lhe ofertaram algo sem nada em troca pedir, ao mesmo tempo em que, também, reconhecerá que tudo que há de mesquinho e miserável em sua alma frutificou tão só e simplesmente de seu orgulho e vaidade que o impele a ansiar ser o centro de tudo.

Aliás, e quanto a vocês meu caro Watson, saberia listar o nome das pessoas que lhe influenciaram e em que medita lhe influenciaram? Bem provavelmente não, pois a gratidão não é um dos pontos fundadores de nossa cultura. A humildade e a procura pela retidão que essa virtude nos impele não são traços marcantes em nossa sociedade o que, conseqüentemente, tornam o reconhecimento de nossa divida para com aqueles que nos ensinaram algo um tanto que estranho e mesmo jocoso nos círculos de convívio desta terra de desterrados.

Por fim, pense-se o que quiser sobre isso. Porém, uma coisa eu lhes digo: qualquer um que humildemente fizer esse exercício, imbuído de profunda sinceridade, aprenderá muito mais sobre si mesmo e sobre a vida do que qualquer professor, incluso esse que lhes escreve, poderá, um dia, ensinar. Todavia, o problema não é esse. O problema é sabermos quem realmente deseja aprender tal lição, não é mesmo?

Pax et bonum
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