CONSELHOS DESDENHADOS – parte II

Escrevinhação n. 832, redigida em 19 de maio de 2010, dia de São Pedro Celestino, Santo Ivo Hélory de Kermartin, São Crispim de Viterbo e do Bem-aventurado Agostinho Novello.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Se o amigo leitor me permite, gostaria de, através destas parvas linhas, tecer outros comentários a respeito do belíssimo livreto de Marco Aurélio, em especial o seu LIVRO I de suas MEDITAÇÕES, onde o mesmo apresenta a nós a sua gratidão para com todos que contribuíram para que ele fosse o homem havia se tornado.

Aliás, tal gesto, em si mesmo, já é algo de grande louvor. Por isso, indagamos: seríamos nós capazes de listar o nome das pessoas com as quais aprendemos algo de significativo e apontar esse algo? E mais! Seríamos capazes de sermos gratos a essas almas pela contribuição que nos legaram para nos tornarmos quem nos tornamos? Provavelmente não. As sombras projetadas por nosso orgulho encobrem e sufocam a nossa humildade na maior parte do tempo.

Dito isso, há uma passagem desta primeira parte de sua obra que julgo ser de significativa relevância para nós, homens modernos. É onde ele aponta de maneira gentil o que aprendeu com o filósofo estóico Claudio Máximo. Diz-nos o Sábio Imperador que, com este homem, aprendeu: “[...] o domínio de si mesmo e o não titubear em matéria nenhuma; a fortaleza nas vicissitudes, notadamente nas enfermidades; a feliz fusão da doçura e da imponência em seu caráter; o cumprimento de suas obrigações sem queixas; o crerem todos que ele pensava como dizia e não havia maldade em seus atos; a ausência de espantos e de medos; o jamais açodar-se ou demorar, embaraçar-se, descoroçoar, ou gargalhar e em seguida entregar-se a cóleras ou suspeitas; a beneficência, a indulgência e a lealdade; o dar antes a impressão de não entortado que de endireitado; que ninguém jamais se imaginaria menosprezado por ele, nem ousaria acreditar-se superior a ele”.

Peço que o leitor, livremente, medite sobre essas palavras, sobre esses ensinos que foram aprendidos pelo finado César Antonino e pergunte-se: quais dessas qualidades humanas se encontram expressamente presentes como conteúdo a ser aprendido em nossas escolas e mesmo de maneira informal em nossa sociedade. Quais? Não à toa que nosso sistema educacional encontra-se capenga do jeito que está e porque ele tem gerado os frutos que tem gerado. Em uma sociedade onde as mais elevadas qualidades humanas não mais são cultivadas como lição fundamental que deva ser aprendida pelo indivíduo torna-se deveras difícil se falar em dignidade.

Poderíamos, nestas linhas, comentar dito por dito, deste trecho da obra do gentil imperador. Poderíamos, porém, nos contentaremos em apenas comentar um, juntamente com o seu gesto. “[...] o domínio de si mesmo e o não titubear em matéria nenhuma”. Essa, a meu ver, é a lição mais importante a ser aprendida por uma tenra alma. Se não somos capazes de dominarmos a nós mesmos não somos capazes de realizar nenhuma empreitada de maneira apropriada, muito menos nos dedicar apropriadamente aos nossos estudos. Uma alma que não é capaz de dominar suas paixões e seus impulsos mais baixos está condenada a ser dominada por qualquer um que demonstre um pouco de força. Uma alma assim turvada, jamais poderá afirmar com convicção que é senhora de si mesma, pois é incapaz de enfrentar qualquer matéria com firmeza e convicção, visto que não é firme consigo e, conseqüentemente, flácido quanto às convicções que o sustentam.

Nossa época está parindo uma geração de pessoas impaciente, ansiosas, insensatas, desregradas, enfim, a cara de nosso sistema educacional que, por sua deixa é a cara escarrada de nossa alma. Uma geração que almeja apenas fazer o que gosta desdenhando o que lhe cabe cumprir. A isso chamam atualmente de cidadania e lutar pelos seus direitos. Fazer o que. A tenra geração aprendeu louco de bem o que lhes foi ensinado.

E assim ensinamos aos nossos mancebos, por não termos agido como o velho imperador e pensado com gratidão sobre as pessoas que nos ensinaram tudo o que de valor preenche nossas vidas, por termos sido orgulhosos e intentado querer criar algo melhor sem ao menos termo-nos nos esforçado em sermos, primeiramente, pessoas melhores.

Pax et bonum
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