A TORMENTA QUE ASSOLA OS OLHOS QUE DESDENHAM

Escrevinhação n. 825, redigida em 23 de abril de 2010, dia de São Jorge e de Santo Adalberto.

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A covardia literalmente paralisa a inteligência humana. O medo, quando toma conta da alma, afasta a pessoa da verdade, da realidade, movendo-a em uma procura desesperada por segurança. Quando somos dominados por este vil sentimento, acabamos por trocar a realidade por qualquer simulacro que nos transmita a gentil sensação se conforto e comodidade.

No fundo, o que os indivíduos que integram a sociedade moderna procuram, de um modo geral e irrestrito, é a sensação de estarem confortáveis. Seguras de que ela possam continuar crendo em suas supertições modernas e poder com traquilidade continuar a praticar as suas idolatrias. Quando estamos nos referindo as superstições modernas estamos, em princípio, apontando para a crença de que a sociedade atual e os elementos que a integram são, em seu conjunto, o que de melhor já ocupou a face do planeta azul onde, tolamente, cultuamos a nossa própria auto-imagem como se esta fosse similar a uma imagem (disforme, é claro) de uma deidade.

De tanto procurarmos obter uma vida “plenamente” segura que fomos gradativamente perdendo a capacidade de captarmos a Verdade. A verdade sobre a vida e sobre nós mesmos, visto que, não é isso que, no final das contas, estamos procurando, mas sim e basicamente, segurança.

Poderíamos aqui ilustrar a nossa missiva com uma penca de exemplos, mas as linhas se seriam parcas para tal empreendimento. Entretanto, isso não impede-nos de nos fiar em um e outro. Vejamos então: alegremente festeja-se em nossa sociedade que a educação é o caminho para se realizar tudo o que há de bom, que a bendita é a senda para que possamos edificar a tal da “sociedade melhor possível”. E o pior que a maioria ululante repete esse mantra de modo incansável em todos os rincões deste país. Constrói-se escolas ali, bibliotecas acolá e, obviamente, muita propaganda esparramada pelos quatro ventos.

Tudo muito bonitinho, mas totalmente ordinário. E olha, não estou a me referir a todo esse teatrinho de feição burlesca. Isso mesmo, paremos de ficar olhando apenas para a dimensão exterior da existência e voltemos as nossas vistas para a perspectiva interior de nossa vida para vermos o ridículo original de nossas superstições e a futilidade de nossos ídolos moderninhos.

Bem, se a educação é o caminho para solução de todos os nossos problemas devemos então nos perguntar se ela é ou não um dever moral. Se o é, então é de basilar importância que cada um chame para si a responsabilidade de fiar as trilhas de sua educação. Porém, essa trilha deve nos levar para onde? Para procura pela verdade ou pela segurança? Devemos estudar para compreendermos algo ou simplesmente para nos sentirmos bem, portando um diploma? Aliás, se é um dever pessoal grave nos dedicar em nossa educação, em que medida nós nos dedicamos a ele? Aha! É aí que a porca torce o rabo meu caro.

Todo mundo fala de boca cheia que a educação é o único meio para se resolver todo e qualquer problema de uma nação, entretanto, para infelicidade geral da tal da nação, podemos contar nos dedos de uma única mão as pessoas que realmente tem amor pela educação, pela sua educação. Ora, paremos com esse trololó de ficarmos mentindo para nós mesmo e sejamos francos da mesma forma que Machado de Assis o foi com toda brasilidade quando nos ensinou o quão ridículo é esse nosso fingimento endêmico que toma conta de nossa vida, fingimento esse que tão ridículo quanto nossa disposição auto-hipinótica de acreditar nele.

Idolatramos essa idéia de educação como uma via de salvação ao mesmo tempo que não aderimos a ela. Usamos essas palavras como uma espécie de patuá, como um amuleto que garanta magicamente a solução de todos os problemas que estão a nossa volta. Estou exagerando? Poxa vida, vivemos em uma sociedade onde os alunos se gabam por serem aprovados por nunca terem estudados. Vivemos em uma sociedade que se espera que o conhecimento integre nossa vida de modo similar ao que ocorre no filme Matrix com o Mr. Anderson. Não queremos esforço. Não queremos a verdade. Desejamos apenas nos sentir seguros e confortáveis.

Você consegue imaginar uma superstição mais boba? Consegue imaginar uma idolatria mais bocó? Não? Provavelmente porque nos orgulhemos dos diplomas que adornam nosso curriculum vitae e nos protejem do fosso sombril de nossa parva existência.

Pax et bonum
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