QUEM EU DEVO SER

Escrevinhação n. 826, redigido em 04 de maio de 2010.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Senhor, fazei-me conhecer a grandeza das ofensas que vos fiz, e a obrigação que tenho de amar-vos”. (Sto. Afonso de Ligório)

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Como nos magoamos com tanta facilidade. Como somos sensíveis e frágeis quando o assunto é o nosso ego, nosso pequenino e medíocre “eu”. Basta que uma pessoa, tão insignificante quanto nós, nos diga algo que logo nos sentimos injuriados. Alguns ficam bravos, em elevado grau, exteriorizando esse estado de espírito. Outros, por sua deixa, apresentam-se de maneira mais discreta, dissimulando certa serenidade, mas que, em seu interior, secretamente, estão a se carcomer-se de raiva, juntamente com todos os sentimentos que lhe são a fim.

Interessante seria se, ao menos, em um reles momento de nossa vida, pudéssemos criar a coragem que tanto carecemos e encarássemos essa faceta indiscreta e mesquinha de nossa alma e procurássemos, de uma maneira franca e sincera, apontar em uma gentil lauda, todos os insultos que nos são atirados contra a face dispondo-os ao lado de todos os insultos que são proferidos contra Deus, contra Aquele que É, em especial, os insultos que são proferidos por nós contra Ele.

Julgamos que tal gesto seria, no mínimo, interessante e explico-lhes a razão disso. Simplesmente pelo fato de que toda vez que esquecemos o nosso lugar na ordem do cosmos e de quem é Deus diante de sua Criação, acabamos por invertendo a ordem da estrutura da realidade nos colocando no lugar Daquele que É, o Ser fundante e estruturante do cosmos, reduzindo-O a uma mera conjectura de nossa pérfida e fútil (in)capacidade mental.

A partir dessa inversão da ordem do real, obviamente que temos uma limitação monstruosa de nossa capacidade de compreender quem somos, o que somos e qual o nosso lugar diante do real e frente Aquele que o funda. Em nome de um antropocentrismo bocó, procuramos dia após dia desdenhar a face do Criador simplesmente porque a nossa compreensão sobre tudo e sobre o todo nós parecem muito mais interessantes ou, se preferirem, mais “legal”, que a própria realidade. Isso meus amigos, é que é um bagual de um insulto.

Provavelmente ainda estará parecendo aos nossos olhos que tal fato não é decorrente e que não agimos de um modo tão mesquinho. Então imagine a seguinte situação: você está diante de um grande amigo seu e este ao invés de chamá-lo pelo seu nome o chama por outro qualquer. Aliás, ele muda o seu nome de acordo com a ocasião e variação de humor. Se isso não bastasse, esse mesmo elemento quando fala a respeito de você inventa sempre uma história diferente. Algumas vezes bonitinha. Outras vezes ordinária. Mas sempre apresenta essas lorotas como se fossem “verdades cientificamente comprovadas”. Ou seja: verdades que ele desconhece totalmente através de uma ciência que o mesmo ignora por meio de comprovações que não passam de um reles flatus vocis de quinta categoria.

Conjecturado isso pergunto: você, cara pálida, não sentir-se-ia insultado? Pois é, mas você, como qualquer pessoa, não passa de um grão de areia impotente diante da estrutura da realidade e mesmo nesta condição você se sentiria ultrajado por uma atitude de desprezo pela realidade da tua pessoa, não é mesmo? Então por que ainda insistimos em crer que as nossas vagas impressões da vida e da criação são mais importantes que a própria criação?

Pode parecer estranho para muitos devido à grande valoração que se dá na sociedade atual ao cultivo de, como se diz, “ter a sua própria opinião” (seja lá o que isso seja). E se insistimos nesse apego patético às nossas impressões vagas e confusas, pergunto então: o que tem mais valor na ordem do real: um cão ou sua opinião sobre o cão? Obviamente que é o cão, simplesmente porque sua opinião é apenas uma impressão sobre a criatura que você, meu caro, é incapaz de criar tal qual ele se apresenta diante das vistas de qualquer observador humano.

Por isso, deixe de frescura. Deixe de orgulho e curve sua cabeça diante da Verdade e permita que ela ilumine a sua inteligência para que ela não seja sufocada pelas sombras mesquinhas e tacanhas de suas opiniões para que a sua vida não seja apenas uma vaga impressão desprovida de substância.

E tenho dito.

Pax et bonum
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