A REALIZAÇÃO DE UM PROPÓSITO

Escrevinhação n. 815, redigido em 17 de março de 2010, dia de São Patrício e Santa Gertrudes de Nivelles.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“A boa consciência é uma força”.
(Mário Ferreira dos Santos)

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Literal e obviamente, o pior cego é aquele que teimosamente se recusa a enxergar a verdade que está diariamente dos seus olhos, sendo esfregada em sua face, não é mesmo? Bem, e não há obviedade mais literal do que o colossal esforço que vem sendo realizado em nosso país e em todo mundo Ocidental para se destruir o Cristianismo com todo o seu arcabouço espiritual e moral.

E neste cenário todo, o que a torna patética, na falta de uma expressão melhor, é o fato de que as próprias vítimas desta articulação macabra vêem-na com bons olhos, pois, no seu parco entendimento, tais mudanças seriam um grande progresso moral para sociedade. Trocando em miúdos, tudo o que há de mais elevado está sendo destroçado diante de nossas vistas e os indivíduos vêem tal gesto como sendo um progresso. Progresso, no seu entender, não porque todos foram elevados à um patamar mais distinto, mas sim, pelo fato pacóvio de que tudo que o sublime está sendo negado e desdenhado em nome do rebaixamento geral da dignidade da pessoa humana.

Entretanto, esses indivíduos parvos de compreensão curta provavelmente podem se indagar, daquele jeitinho folgado e presunçoso: “como eles podem estar rebaixando a dignidade da vida humana se está sendo falando o tempo todo em direitos humanos para todos?” Ora, meu caro Watson, algo que é elementar até mesmo para uma criança de cinco anos é o fato de as palavras não terem um valor em si mesmo, mas sim, em relação ao objeto, a realidade a que elas estão se referindo. Ou seja: o simples fato de estarmos falando o tempo todo de ampliação dos direitos e da dignificação da pessoa humana não significa que os atos perpetrados em nome de tais palavras sejam literalmente um reflexo transparente do sentimento que elas evocam.

Para tanto, se o amigo leitor nos permite, evoquemos nestas linhas alguns exemplos que nos são dados pela mestra da vida sobre esse obvio ululante. Na década de trinta do século passado, um partido político pregava abertamente que iria libertar, repito, libertar a humanidade do domínio judeu. Ora, o partido era o Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha – Nazista – e todos nós sabemos claramente o que significava a palavra “libertação” no vocabulário dessa gente.

Os marxistas, por sua deixa, em seus discursos inflamados sempre proclamaram o intento de emancipar os trabalhadores e, literalmente, não houve e não há na face da terra doutrina política que tenha edificado regimes que mais escravizaram, escravizam e rebaixam o ser humano. Todavia, as palavras utilizadas por eles são bem bonitinhas. Bonitinhas, porém, a realidade de seus propósitos e de seus atos são bem ordinários. Para tanto basta vermos os fatos tal qual nos assaltam a vista sem projetarmos sobre eles nossas desculpas ideologicamente esfarrapadas.

Atualmente, quando os defensores do aborto, da prática do genocídio de inocentes sem que eles tenham o menor direito à defesa, estes não falam desta brutalidade nestes termos. Dizem que estão defendendo “o direito da mulher ter autonomia sobre o seu corpo”, como se a vida do feto não existisse, como se assassinar o bebê no ventre materno fosse apenas uma reles intervenção cirúrgica como a retirada de umas gordurinhas que esteticamente estão incomodando a vaidosa vista humana.

Trocando tudo isso por dorso: o quão leviano que é toda essa discussão em torno da afirmação de novos valores morais. E assim o é, porque toda vez que se procura discutir tais propostas e suas implicações não se procura falar o português de modo claro, mas sim, procura-se utiliza-lo de um modo que as palavras desviem a nossa atenção da ação real que está sendo proposta e a remeta a um conjunto de sentimentos, para uma imagem que seja esteticamente agradável e que nos passe a idéia de que aceitar a repetição passiva destes cacoetes mentais refletiria um sinal de que nos tornamos pessoas mais boazinhas e, consequentemente, mais virtuosas, em seu deturpado entendimento. E isso, meu caro, é sumamente patético.

Em todos os exemplos apontados en passant nas alinhas acima, podemos ver, se desejamos, uma pequena amostra dos inúmeros intentos que foram e que estão sendo realizados para se destruir a Cristandade. Destruição essa que está sendo levada adiante, a passos largos, sutis e que contam, na maioria das vezes, com o apoio conivente e estúpido de suas próprias vítimas que são os ditos membros da Cristandade.

Como nos ensina São Tomas de Aquino, é cumprindo a Lei do ser que o indivíduo humano poderá realizar a sua plenitude. Atingir o que é pleno em nossa natureza é afirmarmos nossa ação sob aquilo que permita a realização do nosso destino, que permita alcançarmos o nosso fim. O meio para tanto é a atividade moral que coincide com a razão, com o bom senso, com a boa medida das proporções.

Bem, se voltarmos nossos olhos para os exemplos anteriores e para boa parte das idéias de jerico, digo, para as propostas brilhantes que ventilam as discussões estupidificantes da atualidade veremos, com grande clareza, que a última coisa que elas podem demonstrar é uma mínima dose de razoabilidade moral, visto que, elas não partem da procura pela plenitude da realização da pessoa humana, mas sim, da vitimização hipotética e hiperbólica da pessoa humana. Tal postulado leva inevitavelmente a extirpação da responsabilidade humana pela sua vida e, com isso, amplia-se de maneira sinistra os poderes do Estado que passa a controlar, sutilmente, a vida das pessoas. Só não vê quem não quer.

Por fim, se há um grande responsável por tudo isso, esse responsável é a própria Cristandade devido a total tibieza que vem tomando conta de todos nós, uma covardia moral que chega a exalar os seus odores putrefazes nos Céus. Os inimigos de Cristo sabem muito bem o que querem, tem muito claro em seus corações qual é o propósito de sua vida. Entretanto, os seguidores de Nosso Senhor, em sua maioria, não sabem qual é o propósito e, consequentemente, o sentido de uma vida dedicada à Boa Nova. Não sabemos nos defender dos ataques pífios e vulgares que são perpetrados contra a Santa Madre Igreja, mesmo que a Tradição, as Santas Letras e a realidade nos apresentem em abundância respostas contundentes a todas as lorotas modernas anticristãs. Todavia, devido a um misto de preguiça e covardia, preferimos nos calar, choramingar e ficarmos escondidinhos, lamentando com nossos amiguinhos o quanto o mundo está se pervertendo.

E pensar que um dia houve Cristãos que eram capazes de fazer o mundo corar de vergonha por suas iniqüidades. E pensar que hoje, as mesmas iniqüidades do mundo nos fazem vergonhosamente calar.

Pax et bonum
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