A PEDRA DESDENHADA PELOS CONSTRUTORES

Escrevinhação n. 817, redigida em 24 de março de 2010, dia de Santa Catarina da Suécia.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Desde que o homem esquece a Deus, esquece a si mesmo, porque o amor de Deus é o nervo de sua vida”.
(Pestalozzi)

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Já nos idos da década de sessenta o escritor católico Gustavo Corção declarava que a grande crise que assolava o mundo era fundamentalmente uma crise de Fé. E que, já naquela década pretérita, era uma crise grave. Antes dele, René Guénon, em 1927, em seu livro A CRISE DO MUNDO MODERNO, nos adverte para o fato de a sociedade moderna Ocidental estava se tornando a única em toda história da humanidade que estava se alicerçando em valores materialistas. E o pior que alicerçou-se e cá está o mundo onde vivemos.

A gravidade de tais apontamentos está justamente no desdém insistente que se apresenta e se cultiva com relação à transcendência da alma humana e a redução da natureza humana a um reles amontoado de moléculas condicionadas socialmente. Ora, o que dignifica o ser humano não é a sua carne e muito menos a sua carga genética, mas sim, a sua tendência superior, a finalidade última de sua existência que é justamente o seu destino. Trocando em miúdos, não é possível, como nos ensina o Pe. Leonel Franca (Obras Completas tomo III, 1953), preparar uma criança para a vida sem levá-la a conhecer as razões supremas do viver.

O problema dos destinos humanos é um problema basilar na formação do caráter do indivíduo simplesmente porque este habita de maneira indelével o âmago de nosso ser e, por isso, tais preocupações são pontos importantíssimos na construção da vida moral do indivíduo. Apartado de horizonte de consciência do sujeito, esse ideal de plenitude, destrói-se todos os critérios que estabelecem a hierarquia dos valores morais que regulamentam e motivam todas as ações humanas.

Por esse motivo que o referido padre dizia que uma educação sem um ideal é análoga a um navio sem bússola. Quando não se ensina claramente para um garotinho o que é uma vida vivida a partir de preceitos superiores e qual o significado e a importância disso está-se, literalmente, abandonando este no meio de um mar bravio, que é a realidade, para navegar sem uma bússola, sem cartas cartográficas e sem velas.

E quanto ao Ensino Religioso vigente em nossas escolas? E quanto a filosofia? A segunda, nos moldes vigentes, é apenas doutrinação materialista. Nada mais, nada menos que isso. Quanto a primeira é uma versão vulgarizada da educação religiosa. Isso mesmo. Apresentar para crianças as religiões de maneira superficial como se fossem coisas que elas podem optar para adornar a sua vida é algo de uma vulgaridade sem tamanho, ainda mais em uma idade em que o indivíduo está começando (ou pelo menos deveria) a aprender a praticar uma religião. Já pararam pra pensar na confusão que se está fazendo na cabeça dos infantes? Creio que não.

Tal disciplina, literalmente, acaba reduzindo o fenômeno que é essencialmente humano a uma reles curiosidade escolar, pois, não se compreende nunca o que é uma religião sem que, primeiramente, tenhamos uma vida religiosa madura. E isso é o óbvio ululante. Não é por menos que saia tanta bobagem sobre esse assunto, visto que, dá para contar nos dedos do pé de um babuíno quantas pessoas realmente saberia responder de maneira apropriada a essas indagações. Principalmente as que trabalham com essa disciplina.

E vejam só como estão as coisas: o que era o centro da formação de um indivíduo humano, a instrução religiosa, foi reduzida a uma mera curiosidade histórica e sociológica. Fazendo isso, obviamente que não teremos a extirpação desta tensão ao Eterno que habita a alma humana, porém, inevitavelmente acabamos por ter a sua mutilação. Não é por menos que nos dias de hoje, ao invés de procurar-se a realização de um ideal que leve o ser humano através de uma sincera e contínua abnegação interior à realização de uma grandeza moral no âmago de sua vida, tem-se no meio pedagógico o culto idolátrico e espúrio de uma utopia. Ou seja: todo bom entendedor, mais do que depressa, percebe que no lugar de uma salutar instrução religiosa que apresenta um ideal de realização humana colocou-se uma vulgar instrução ideológica.

Tal troca, inevitavelmente, gera uma significativa desorientação moral, pois, como nos ensina Garrigou-Lagrange, cada alma humana é como um universo espiritual. Não há ser humano que não esteja aberto para a verdade universal através de sua inteligência e de sua vontade e se não for apresentado ao indivíduo os instrumentos para regular e motivar o seu ser, isso não significará que ele não mais os procurará, mas sim, que ele se agarrará a qualquer coisa que se apresente para ele. Aliás, não é isso que literalmente estamos testemunhando em nossa sociedade? Não é isso que muitas vezes estamos testemunhando em nossa vida?

Obviamente que as disciplinas escolares citadas linhas acima não são a causa deste problema, mas apenas um sintoma de uma enfermidade que vem tomando conta da vida contemporânea. A solução para tal crise não reside, de modo algum, nos esforços das Potestades Estatais, principalmente se elas estiverem imbuídas de boa-vontade (o Estado neste estado assusta).

O caminho está na procura que cada indivíduo pode e deve trilhar na vivência de uma vida dedicada a edificação de um sólido conhecimento religioso e metafísico. Conhecimento adquirido através de uma vida resignada à vivência do que estará sendo estudado para, deste modo, irradiar os seus efeitos sobre as pessoas, para que estas também, há seu tempo, movam-se para essa direção.

Todavia, como vivemos em uma sociedade em que o fingimento é a regra e a procura pela verdade uma raríssima exceção, a crise continua sem alternativa e sem solução.

Pax et bonum
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