MEDITAÇÕES SEM NEXO, OU NÃO...

Escrevinhação n. 813, redigido em 27 de fevereiro de 2010, dia de São Gabriel de Nossa Senhora das Dores e São Nicéforo.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Se fossemos rastrear um dos pontos graves de nosso sistema educacional, não iria pestanejar por um único instante para dizer que é a total falta de sinceridade que impera no mesmo. Quando nos referimos a essa carência, não estamos a nos referir a relação secundária e exterior advinda desta postura perante o próximo e a realidade. Quando apontamos para essa ausência, referimo-nos a falta de sinceridade que existe do indivíduo para consigo mesmo. Se tal não existe, todo o resto não passará de colóquio flácido para bovino adormecer.

Gostemos ou não, um dado que é facilmente perceptível em nossa sociedade é a necessidade prenhe de fingir existente nas relações humanas nos mais variados níveis e nas mais distintas esferas. O fingimento, como todas as demais atitudes humanas, é cevado em nossa alma através da prática contínua que é realizada a partir da mimetização do que testemunhamos na sociedade e que, deste modo, é apresentado como sendo uma atitude aceitável. Como algo normal, necessário.

Aquilo que visualizamos no tecido social e que imitamos em nossa prática diária acaba sendo reproduzido por nós interiormente em nossa alma e em nosso diálogo interior. Isso mesmo. Se tais gestos insinceros fossem apenas uma reles macaqueação exterior sem reflexos na vida interior não haveria razão para que minh’alma movesse as mãos que estão a escrevinhar essas palavras com essa pena e tinteiro digital. O problema impera sim e se faz grave justamente porque tudo aquilo que mimetizamos exteriormente acaba por ser replicado interiormente.

Deste modo, esse clima de fingimento que media as relações humanas entre indivíduos e instituições sociais (no sentido dado por Peter Berger ao termo) acaba por mediar e dar forma a relação que mantemos com a nossa consciência moral, com o Tribunal da Verdade que habita em nosso ser. Ou seja: de tanto fingirmos para todos sobre tudo acabamos por fingir para nós mesmos aquilo que em hipótese alguma realmente somos acreditando piamente em nosso simulacro pessoal.

Desta forma, acabamos por falsear nossa capacidade de captar a realidade sobre nossa existência e, inevitavelmente, acabamos por tolher qualquer tentativa de compreender os problemas que estão a nossa volta por estarmos sumamente habituados a agir na base da simulação. Assim o é, porque a consciência moral ordena as ações humanas em vista da realidade objetiva, da Verdade que se revela a nossa vista e que habita em nós. Do mesmo modo, nossa capacidade de conhecer é apenas eficaz quando esta é norteada pelo nosso desejo de conhecer a realidade (ou apenas um pequeno extrato desta) em sua Verdade. Se não procedemos assim, que estamos fazendo? Fingindo que estamos conhecendo, aprendendo uma e outra palavra vazia, sem significado substancial, para repetir nas conversas fúteis que mantemos com os nossos pares nos mais variados ambientes para, junto com eles, coletivamente fingirmos que sabemos alguma coisa apoiando-nos mutuamente em nossas simulações voluntárias.

Se fosse recorrer a uma analogia, creio que a mais apropria seria essa: fingir amar a verdade, dissimular o interesse por conhecê-la, é similar a uma pessoa enferma que finge amar a sua saúde e que dissimula estar se tratando. Seja no caso do amor à saúde ou no do amor ao conhecimento, em ambas as situações é indispensável que abramos mão de algo para que esses bens possam ser obtidos. É necessário que realizemos um determinado sacrifício nas duas situações. No caso da enfermidade corpórea, é necessário que confiemos no tratamento que nos está sendo ofertado pelo médico e pratiquemos as prescrições recomendadas se realmente desejamos nos restabelecer. No caso da carência intelectual e espiritual, é fundamental que não dissimulemos em nosso interior um interesse pela Verdade, mas que a desejamos vivamente em nosso íntimo e a irradiemos na prática que estará sendo assimilada por nós no ato de estudar.

Ora, é assim que aprendemos a ler. Não é a língua que se adapta a nós. É nosso intelecto que se amolda a ela para poder utilizá-la como um meio de ação. Aliás, não apenas para ler, mas para aprender até mesmo a falar. Achamos até bonitinho ver uma criança falando as suas palavrinhas iniciais, mas nenhuma mãe deseja que seus filhos falem para sempre daquele modo. É preciso que a sua fala se amolde à fala formal e cresça em seu poder de expressar a realidade dentro da forma que ela, a língua, apresenta como modos possíveis. Porém, o que ocorreria com o aprendizado da língua se fingimos falar bem sem sermos capazes de bem captar e expressar a realidade? Provavelmente vamos expressar muito mal aquilo que nem mesmo captamos porque estaríamos fingindo que estar entendendo tudo sem ao menos saber ao que, realmente, estamos nos referindo.

Um exemplo que julgamos bastante ilustrativo sobre isso são as críticas causticas feitas à geração tenra pelo seu desgosto pela leitura. Críticas estas, por sua vez, feita por uma geração, a nossa, que não teve e não tem o menor amor pelos estudos. Tanto o é que são raras as pessoas de nossa geração que estabelece, ao menos, como objetivo em suas férias, de ler bom livro e quando o fazem acabam por eleger o que há de pior no mercado editorial simplesmente por não possuir um aquilatado critério de seleção por não ter se habituado a tal exercício.

Mas nos habituamos a fingir. A arrotar grandeza interior que inexiste em nós, a dissimular uma magnificência que seriamos incapazes de reconhecer se nos deparássemos com ela porque a desconhecemos e a desprezamos e esse nosso mau hábito, queiramos ou não, está sendo muito bem aprendido pela geração atual na contradição de nossas palavras bonitinhas com os gestos que nos habituamos a fazer e a viver em nosso fingimento perene e socialmente aceito.

Pax et bonum
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