EM BUSCA DE ALGO, MAS DO QUE?

Escrevinhação n. 814, redigido em 10 de março de 2010, dia de São Macário e dos quarenta santos mártires de Sebaste.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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É desconcertante vermos uma pessoa cheia de sonhos, toda empolgada falando de seus planos ao nosso ouvido, relatando seus desejos mais sublimes e nos apresentando, passo a passo, como ela gostaria de realizá-los. Afirmamos isso, não porque julgamos impróprio ao ser humano que ele sonhe, não mesmo. Dizemos isso, porque via de regra essas pessoas que tanto amam anunciar os seus sonhos e planos como batidas fora de ritmo em nosso tímpano, são justamente as pessoas que se apresentam de maneira mais incapaz de despender uma quantidade de energia equivalente à sua conversa fiada na efetivação das realidades hipotéticas descritas em seu colóquio.

Por essa razão sorumbática que todo rosário de sonhos que não se transformam em objetivos efetivos na vida do indivíduo não passam de meras manifestações, mesmo que discreta, de uma justificação para o fracasso do sujeito que não é capaz de realizar plenamente as potencialidades que ele imagina ser merecedor, mas que, definitivamente nada faz para merecê-las e, em seus lamentos dissimulados, na forma de “projetos pessoais”, apenas manifesta aquela empáfia característica em nossa sociedade onde o fracasso sobe a cabeça e o elemento orgulha-se do que ele não é capaz de realizar, mas que, em sua imaginação – e somente lá – ele se vê capaz de realizar.

Trocando em miúdos, é de amargar termos de ver pessoas adultas e muitíssimas vezes dotadas de muitos meios de ação ficar depositando sobre as paletas da sociedade a culpa pela sua desídia existencial, pelo seu fracasso como pessoa, simplesmente porque elas imaginam que somente pelo fato de elas desejarem um mundo melhor, ou de se imaginarem muito sábias, elas deveriam ser tratadas com uma reverência digna apenas a mártires e santos. Nunca passou pelas suas cabeças de alfinete que seria de bom alvitre avaliar as suas realização, o valor das mesmas e, quem sabe, perceber que literalmente que a sociedade acaba ofertando-nos muito mais do que merecemos.

Reacionário! Provavelmente gritará algum mentecapto. Mas sejamos realistas, em princípio, ao menos, para conosco mesmo, tomando uma medida humana do que nós estamos falando. Uma medida de um ser humano que realmente teve negado os meios para realização de sua plenitude, de seu projeto de vida e que, de modo algum, fez desta negação uma justificativa para o seu fracasso. Pelo contraio, fez desta negação o caminho que deveria ser percorrido, que deveria ser seguido para se realizar concretamente a plenitude de sua humanidade.

Quando voltamos nossas vistas para a biografia de um Louis Pasteur, vemos o quanto a sociedade lhe negou as tais das “oportunidades”. Tamanha foram as negações que durante boa parte de sua vida, o seu laboratório de estudos se localizava embaixo da escada da pensão onde ele morava. Ele não agiu como boa parte de nossos ditos pesquisadores que, ao contrário de Pasteur, nos legaram apenas os seus lamentos e revoltas contra a falta de incentivo. Ele chamou para si a responsabilidade pela sua vida e dedicou todas as suas forças a realização do propósito de sua existência.

Ou então, se me permitem, gostaria de apresentar outro exemplo edificante, que é do historiador Césare Cantu. Homem este que escreveu uma obra intitulada HISTÓRIA UNIVERSAL em trinta e três volumes (originalmente era em setenta e dois). Todavia, este senhor escreveu a referida obra na cadeia sem poder consultar nenhuma fonte. Ou seja, fez tudo confiando apenas em seu saber adquirido e devidamente arquivado em sua memória. Neste tempo também escreveu o romance MARGHERITA PUSTERLA. Bem, é claro que a referida obra historiográfica tem alguns erros. Todavia, dificilmente os seus críticos brasilianos seriam capazes de escrever algo similar mesmo estando em melhores condições e com o devido acesso as mais variadas fontes.

Por fim, não tinha como não destacar a vida de um santo. Em regra, todos os santos lutaram, literalmente, contra o mundo para poder realizar plenamente o sentido de sua vida. Aliás, não existe nada mais edificante para pessoas rasas como nós do que conhecer a vida destas pessoas de aquilatada alma como, por exemplo, São Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus. Tomás era de família nobre e, naturalmente, os seus pais desejavam que ele trilhasse uma carreira aristocrática. Todavia, Tomás decidiu seguir a carreira religiosa. Naturalmente, os seus pais não aprovaram. Tanto reprovaram sua escolha que ele teve de fugir para poder seguir sua vocação. Diante disso, seus pais mandaram prende-lo em uma masmorra para ver se conseguiam dobrar o seu ânimo. Todavia, tal gesto naufragou em seu intento. Após alguns anos de cárcere ele fugiu e conseguiu finalmente dedicar a sua vida na realização pela de seu chamamento, juntando-se à Ordem dos Dominicanos mendicantes.

Pois é, e nós o que fazemos quando nos defrontamos com os obstáculos que a vida gentilmente nos apresenta? Fugimos para o colo da mamãe e ficamos nos lamentando das injustiças do mundo e o quanto o sistema é ruim e blábláblá. Mas e quem disse que você é melhor que essa cloaca podre que é a sociedade? Não estamos negando a existência dos problemas. Não mesmo. Afirmamos apenas que eles são inerentes à estrutura da realidade e que estes são o ponto de partida para a realização de nosso ser e não um obstáculo que se apresenta para nos tolher.

Mas é claro que terão aqueles que estão ruminando em seu intimo sentenças como: “Ah! E como é que ficam as pessoas que não tem as mínimas condições de vida?!” estes, sem perceber, estão fazendo justamente isso que estamos falando. Aliás, são justamente essas pessoas, desprovidas de praticamente todos os meios, que nos ensinam lições ímpares de dignidade enquanto muitos outros, rodeados de inúmeros meios de ação, sabem apenas justificar a sua indignidade na carência dos outros, dando-nos assim, uma lição única de mediocridade gritante. E, provavelmente, penas lembram dos desvalidos, para justificar a sua desídia existencial e sua sanha de projetar no mundo a sua responsabilidade, a sua culpa por ser o que é.

Pax et bonum
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