PELOS FRUTOS CONHECEREIS

Escrevinhação n. 810, redigido 10 de fevereiro de 2010, dia de Santa Escolástica e São Guilherme de Malavale.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência."
(Santo Agostinho)

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Quanto o assunto é educação contemporânea temos sempre uma multidão de doutos, com seus diplomas e chiliques ignóbeis, que se colocam a falar sobre o tema e, sem pedir licença a ninguém, proclamam que suas idéias ululantes, sobre o gesto de educar, seriam as idéias de toda sociedade como se eles fossem realmente os porta-vozes de todos nós.

De minha parte, nutro sincera convicção de que toda afirmação, idéia, teoria e proposta que toma como pressuposto de sua autoridade a falácia de estar discursando em nome de todos, ou em nome do hipotético bem da maioria, deve ser olhada com uma meticulosa desconfiança, visto que, a validade de todo discurso humano não está na benevolência das palavras utilizadas pelo proponente de uma idéia e muito menos nas supostas boas intenções do mesmo, mas sim, na forma como essas palavras refletem a estrutura da realidade e nada mais. O resto é chilique e bravata de quem quer transformar aquilo que desconhece posando de bom moço sem sê-lo.

Exemplo disso que estamos apontando são os louros que nos foram entregues pela Unesco neste ano de 2010 da Graça de Nosso Senhor. Essa terra de desterrados chamada Brasil, de acordo com o relatório "Monitoramento de Educação para Todos - 2010" conseguiu a façanha de sair da 76ª colocação para a 88ª em um ranking de 128 países. O referido relatório aponta-nos que um dos quesitos que mais contribuiu para essa vertiginosa queda foi o índice de repetência. Segundo esse documento, estamos com uma taxa de repetência de 18,7% no ensino fundamental. É meus caros, nós só perdemos nesse quesito para 13 países que fazem parte da África subsaariana.

Diante desses números nada simpáticos, não temos como não meditar sobre o que está ocorrendo com nosso sistema educacional. Para tanto gostaria de chamar a atenção para alguns aspectos que já em outras ocasiões havíamos chamado a atenção em nossa coluna. Primeiramente com relação a tal da reprovação que, em si, apresentam-se de maneira falseada, atualmente. Isso mesmo, pois, como todos nós sabemos (e alguns já estão ficando careca de saber), esse número torna-se significativamente maior se somarmos a ele os alunos que são aprovados através do Conselho de Classe que, indiscriminadamente, aprova muitíssimas vezes alunos que reprovaram em duas, três, quatro, cinco disciplinas. Reprovações essas que não são por apenas alguns míseros décimos, mas devido a um considerável baixo rendimento e, mesmo assim, tal resultado é visto com bons olhos.

E tem mais! Se compararmos com índice de reprovações que se fazia vigente na década de 80, mais especificamente, no ano de 1988 veremos que este era de 20%. Detalhe: nestes idos, os alunos para ficarem retidos não precisavam reprovar em inúmeras disciplinas com notas lamentáveis e vergonhosas. Bastava uma que estivesse poucos décimos abaixo do mínimo necessário para aprovação. Quanto ao número que aprovações por conselho, este era insignificante. Fazendo a comparação destes dados com os atuais, pelo menos aos nossos olhos, assusta não apenas o que está sendo feito com a educação em nosso país, mas principalmente o que está sendo feito com nossos jovens e com o legado que será deixado para as gerações vindouras.

Obviamente que tais práticas são um reflexo das políticas educacionais que se fazem vigente em nosso país, mas, de onde elas vieram? Ora, como nos ensina F. Hayek, não apenas atos têm conseqüência. As idéias também o têm. E essas, em regra, são muito mais sérias. O amigo deve estar se perguntando o que estamos querendo dizer com isso. Simples: que tais políticas educacionais são fruto das teorias e idéias pedagógicas morderninhas que são ensinadas nos quatro cantos desse país que em sua pedagogice populista dá-se uma ênfase tão grande para a necessidade de uma profunda transformação da sociedade que se desdenha do essencial: há de se educar as almas tenras.

Qual professor nunca escutou aquela ladainha “histórico-crica” de que temos de olhar o contexto social do aluno, sua história pessoal, familiar, os problemas que ele enfrentou e enfrenta? O engraçado que toda vez que se entoa esse sermão se esquece, não sei por quais cargas d’água, de se falar que devemos ver se o aluno realmente desenvolveu minimamente a sua capacidade intelectual, se ele progrediu no que tange o estudo das disciplinas ministradas.

Trocando em miúdos: a aprovação oficialmente não é contínua e irrestrita, porém, na prática, ela é. Todos os anos premiam-se a mediocridade com a aprovação e puni-se o zelo e a dedicação com o rebaixamento de seus méritos ao mesmo nível do valor que se dá aos irresponsáveis que vivem embalados pela desídia motivada através da clara visão que se tem de que, no fim do ano, “não vai dar nada“. E aí, perguntamos: quantos e quantos bons alunos, zelosos e devotados aos seus estudos não se desmotivaram e, no correr dos anos, não foram decaindo e se desinteressando pelas suas obrigações?

Mas é claro que, creio eu, praticamente vários educadores já ouviram da boca destes sábios e doutos em educação que se a escola não lhes ensinou a vida lhes ensinará. Putz grila! Será que essa gente nunca parou para pensar na crueldade dessa frase? Seria o mesmo que um treinador dissesse a um aluno de boxe que o que ele não aprendeu a academia ele aprenderá lutando contra Mike Tyson.

E o que torna essa frase maldita mais grave é que esses mesmo sujeitos que adoram alentar a desídia estudantil vivem falando que a educação deve primar pela inclusão social. Mas Dio Santo, que inclusão é essa que não se importa com o aprendizado dos saberes elementares que são ministrados através das disciplinas escolares e desdenha a auto-disciplina que pode ser assimilada através da seriedade dos estudos?

É claro que praticamente todo professor já teve que ouvir aquela perguntinha cretinha que indaga, cinicamente: quando o aluno vai usar isso? Para que ele precisa saber regra de três? Por que ele precisa aprender inglês? Segundo esses inquisidores, o importante é que o aluno tenha demonstrado progresso, mas progresso em que? Aliás, para lhes ser franco, afirmo-lhes que passarei a tratar essa gente seguindo esse critério. Isso mesmo, digo abertamente a todos os senhores que alentam esses cacoetes mentais em sua alma que não perderei nem mais um minuto de meu precioso tempo ouvindo suas lorotas, pois seus doutos conselhos não passam de um amontoado de delírios, expressos com todos os pendores acadêmicos, porém, sem valia alguma. Aliás, sem a valia que eles, presunçosamente, julgam ter e com o valor que seus frutos estão dia após dia a nos revelar devido a sua influência nas políticas públicas.

Pax et bonum
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