MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte final

Escrevinhação n. 808, redigido em 27 de janeiro de 2010, dia de Santa Ângela de Mérici.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“Cada homem é aquilo que ama”.
(Sto. Agostinho)

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Qual o caminho que costumamos trilhar em nossa caminhada por esse vale de lágrimas? Qual é o rumo que ditamos com nossas intenções, qual a direção que desejamos seguir? Não meditar sobre essas duas perguntas, desprezá-las, não significa, necessariamente, que somos seres superiores e que não temos que nos preocupar com tais querelas existenciais. Na verdade, há uma grande probabilidade de que além de não sermos capazes de apresentar uma resposta razoável para as questões suscitadas no início desta missiva. Receamos encontrar a resposta verdadeira que é o fato de estarmos vagando a esmo. Tememos tomar consciência do fato de estarmos indo rumo às profundezas que estão sendo escavadas por nossa ignorância.

Por essa razão que Santo Agostinho, o Doctor Gratiae, nos admoestas com as seguintes palavras: “Andar por dentro é desejar as coisas de dentro. Andar por fora é desprezar as coisas de dentro e encher-se das de fora. O orgulhoso lança fora o que tem dentro; o humilde o busca com afã. A soberba exila o homem de si mesmo; a humildade o devolve à sua intimidade”. É isso que tanto falta para nós, para as pessoas que vivem atualmente neste mundo. Inclusive e principalmente para os Cristãos hodiernos. Nossos olhos amam em demasia os favores e regalos do mundo e acabamos por nos esquecer da dimensão mais importante da existência que é Aquela que habita em nosso coração: A Verdade divina que ilumina a nossa vida.

A Verdade está em nós. Nosso Senhor habita em nossos corações. Todavia, estamos com os olhos do coração tão fixamente voltados para o que é fugidio, momentâneo, que nos tornamos incapazes de enxergar o que é perene e Eterno. Quem o diga compreender o que está além do que seja meramente mundano. Damos muito mais importância para a impressão que damos ao mundo, exteriormente, do que ao mundo interior que há em nossa alma. Por estarmos com nossos olhos tão fitados aos bens seculares que os valores que esses bens representam estão gradativamente invadindo e tomando conta de nosso ser, deturpando-o, degradando-o, tornando-o a imagem e semelhança de nossa vontade amolda aos interesses do mundo, da carne e do encardido príncipe das trevas, o senhor da mentira.

E é nesse sentido que a recitação do Santo Rosário é um ungüento tão fundamental. Assim o é, primeiramente, porque essa devoção tem origem Divina, nos foi revelada. Em segundo lugar, tal recitação não é apenas um exercício de piedade. É, acima disso, uma autentica via de realização espiritual, como nos ensina Jean Hani, que nos explica que no Rosário há dois elementos fundamentais: o Nome Divino que é repetido ritmicamente o que, consequentemente, nos move em direção da atividade meditativa. Nesta atividade meditativa, interior, a alma fiel movimenta-se em direção de sua elevação para o Logos Divino, para unir-se a Ele. É uma sincera aspiração do ser individual e fragmentado para obter uma graça do Espírito Santo, uma iluminação interior.

Sobre esse tema Frithjof Schuon nos lembra que a importância da invocação do Nome de Deus está no fato de que tal invocação auxilia-nos a recordar o Logos, a Sua presença em nós. Essa recordação não é outra coisa do que a gradativa tomada de consciência do Absoluto. A recitação do Nome Divino, atualiza essa consciência em nós com vistas a perpetuar-se em nós e fixa-la em nosso coração. Recorrendo mais uma vez aos ensinos de Jean Hani, esse nos lembra que a consciência do absoluto é uma prerrogativa da inteligência humana e, consequentemente, a sua finalidade primeira. A inteligência é um atributo Divino, uma centelha do Logos que habita em nós. Por isso ela é capaz de atualizar-se junto ao Espírito de Deus e preservar essa atualização em seu âmago. Todavia, ela, a inteligência humana, não é capaz de esgotar o Espírito Santo, mas pode indefinidamente atualizar-se junto a Ele se o indivíduo humano procurar amoldar o seu mundo interior de acordo com a Vontade de Deus e não de acordo com os desejos e com as imagens sensuais do mundo.

A essa altura de nossa escrevinhação o leitor pode estar se perguntando, como que o Nome Divino é repetido na recitação do Santo Rosário? Bem, primeiramente na recitação da oração Dominical – Pai Nosso – que foi uma prece ensinada pelo próprio Verbo Encarnado. Além disso, recitamos também, ritmicamente, a oração da Ave Maria que também são Palavras reveladas por Deus a todos nós. A primeira parte é a saudação angelical, a saudação feita por São Gabriel Arcanjo à Santíssima Virgem Maria (Ave Maria cheia de graça, o Senhor É convosco). Ou seja: são Palavras vindas diretamente de Deus. A segunda parte (Bendita sois-vos entre as mulheres, bendito é o fruto de vosso ventre Jesus) foi dita por Santa Izabel, inspirada pelo Espírito Santo. As duas saudações feitas à Virgem Santíssima se referem a obra de Deus nela que a tornou co-redentora de toda a Humanidade. Ou seja, Maria não é apenas uma mulher que deu a luz a um menino. Ela é uma obra de Deus para toda humanidade para que nós possamos receber O Redentor, o Filho Unigênito do Criador.

A evocação do nome da Santíssima Virgem é a evocação do Nome de Deus porque nela se manifesta plenamente a Vontade Daquele que É. De mais a mais, como nos ensina, mais uma vez, Jean Hani, a Mãe do Verbo Encarnado é a manifestação humana da onipossibilidade da substância universal. Santa Maria é a mãe universal e matéria-prima fecunda como as águas primordiais sobre as quais o Espírito de Deus pairava. Através de seu ventre é apresentado a todos nós o Novo Adão para que o sigamos e nos elevemos de nossa condição de pecado, de erro e de mentira.

Rezando o Rosário, nós atualizamos nossa consciência desta Verdade, nós ampliamos nossa consciência sobre a nossa miserável condição e sobre o nosso destino. Meditando sobre os Mistérios contemplados através desta devoção, são-nos gravados com o fogo celeste do Espírito Santo em nosso coração os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que realmente nos convertamos naquilo que Deus quer que sejamos e não mais naquilo que nossa alma fragmentada pelas tensões e tentações do mundo, da carne e das mentiras e subterfúgios daquele que vive da mentira querem. A meditação diária dos Mistérios do Rosário, a recitação diuturna desta Santa devoção, ilumina a vida do indivíduo fiel permitindo-lhe caminhar, a passos firmes, na direção da realização do Reino de Deus, do Reino do Espírito e da Verdade em nossa alma.

Em fim, rezemos o Santo Rosário, entreguemos nossos dedos para suas contas e nossos lábios à sua proclamação para que o centro de nosso ser volte-se para as Verdades que estão presentes nele para serem lidas com os olhos da alma, para que amoldemo-nos e passemos a seguir a luz do Espírito Santo e não mais trilhemos pelos caminhos de sombras do espírito do mundo.

Pax et bonum
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