ISTO ÉS TU

Escrevinhação n. 812, redigido em 21 de fevereiro de 2010, dia de São Pedro Damião.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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O tempo da Quaresma é, para todo Cristão, um tempo singular onde temos a oportunidade para refletirmos sobre a nossa real condição neste vale de lágrimas. Isso mesmo. Passamos boa parte dos dias com nossas vistas voltadas para os bens exteriores, para as luzes ofuscantes do mundo que nos convidam a cultuar os seus ídolos incessantemente. Na Quaresma temos um momento especialmente reservado para meditar sobre a relação que mantemos com o mundo, com a Verdade sobre nós, com a Verdade que nos é ensinada por Deus através das Sagradas Letras, por meios da vida e da obra de Suas obras primas (os Santos e Santas) e através de Sua Criação.

Dito isso, se me permitem, gostaria de iniciar essa breve meditação através dos ensinamentos de um dos Sermões sobre a quarta-feira de cinzas do Padre Antônio Vieira pregado em 1672 na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses. Ensina-nos esta magna alma que o que somos é determinado pelo que fomos e pelo que retornaremos a ser. Ou seja, simplesmente pó. Bem, é claro que todos nós sabemos disso, porém, em que medida tomamos posse dessa informação e meditamos seriamente sobre essa nossa miserável condição? Cobrimo-nos com os mais variados títulos, honrarias, badulaques e símbolos de status social para podermos nos diferenciar dos demais que estão a nossa volta, distantes ou abaixo de nós, ludibriando sempre nossa consciência da elementar verdade sobre nossa condição para maior satisfação de nosso orgulho e vaidade, não é mesmo?

Santo Afonso de Ligório, o Doctor Zelantissimus, em sua obra “PREPARAÇÃO PARA A MORTE – consideração sobre as verdades eternas”, nos lembra algumas passagens celebres da história humana. Dentre elas, destacamos essa que conta-nos que certa feita estava o filósofo Diógenes vasculhando uma pilha de crânios e Alexandre, o Grande, perguntou-lhe: “o que faz?” E ele, ironicamente, respondeu: “estou procurando o crânio do finado rei Felipe”. Quanto a nós, cá estamos, muitas vezes nos empavonando com nossas conquistas frente ao mundo, com nossos méritos reconhecidos por nossa Época. Todavia, o que é tudo isso diante da imensidão do Universo físico? O que são essas nossas glórias diante de eternidade? O que somos, com tudo isso, diante do olhar onisciente Daquele que É?

Essa é nossa real condição. Compreende-la e aceita-la não é, de modo algum, algo humilhante, pois, aceitar a Verdade e permitir que Ela nos molde e nos ilumine é o atributo central da razão para nos elevarmos dessa condição. Reconhecer e obedecer a Verdade é o passo primeiro para crescermos rumo a maturidade. Fazendo isso já aprendemos qual é a nossa real possibilidade de realização. Entretanto, se somos apenas isso, poderemos nos tornar algo que não seja apenas pó? Ora, meu caro Watson, seremos apenas pó se continuarmos apenas focando nossa vida na direção do mundo para engrandecer o nosso orgulho e massagear nossa vaidade. Toda caminhada fiada apenas na direção terrena terá unicamente esse destino. O destino de tudo que está debaixo do sol, como nos ensina o Livro do Eclesiastes.

De mais a mais, perguntamos: quantas criaturas na face da terra têm uma clara compreensão desta situação? Apenas nós. E somente nós nos permitimos a façanha pífia de imaginarmos ser maior que o Criador com nossos ignóbeis feitos. Doravante, o fato de podermos compreender isso tudo e podermos saber isso, em sim, é um claro sinal da misericórdia Divina. Só não vê quem não quer. Ensinar é um gesto deste gênero, e Deus, em sua infinita misericórdia permite que pequenos e insignificantes pontos perdidos em meio a imensidão de Sua obra possam saber disso.

E mais! Não nos esqueçamos que todo ato de misericórdia é uma demonstração de amor. E é isso que o tempo da Quaresma nos propicia. Ele nos convida para vivermos mais intensamente nossas orações e penitencias para que, deste modo, compreendamos o que São Francisco de Assis quis dizer quando proclamou as seguintes palavras: “Deus, para viver, eu preciso de pouco. E deste pouco, eu preciso de muito pouco”.

E o que nos ensina a sociedade moderna? Que tudo o que possuímos é sempre muito pouco para que possamos viver. O tempo todo nos é dito que nunca temos tudo o que precisamos, porém, o que realmente é preciso e o que tenho feito para merecê-lo? E se merecemos, em que medita realmente precisamos de tudo o que temos? Veja bem, não estamos nos referindo aos bens materiais, especificamente. Referimo-nos a tudo aquilo que acreditamos possuir, que cremos ser nosso, efetivamente, e que, consequentemente, imaginamos que seja um reflexo legitimo do que somos.

Tudo pó. Tudo o que somos, tudo o que possuímos, tudo que pode ser tocado pelas nossas vistas, acariciado pela nossa imaginação faz-se pó quando estamos distanciados Daquele que dá sentido a tudo que somos, possuímos e imaginamos. Deus é amor e por assim o Ser, Ele é a Verdade que fundamenta e dá sentido a realidade e esta, desvinculada da Verdade, não passa de uma fantasia sombria que, gradativamente, nos incapacita de amarmos verdadeiramente.

Por fim, isto és tu e não outra coisa. Por isso, nada melhor que nos entregarmos ao convite que nos é feito neste tempo, nos entregarmos ao silêncio evangélico, como nos ensina São Francisco de Paula em sua Regra, para que possamos, humildemente, aceitar a realização dos ensinamentos proferidos por esse silêncio em nosso íntimo e, deste modo, voltar nossa vista para Deus, lavando nossos olhos nas caudalosas águas da Fonte da Água Viva e assim enxergarmos com clareza a trilha que devemos fiar o passo de nossa inteligência e o ponto que iremos centrar a nossa vontade para que a Verdade nos eleve para que possamos ser com Ela algo mais do que o pó de nossa vaidade e orgulho.

Pax et bonum
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