MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte XIII

Escrevinhação n. 796, redigida em 08 de dezembro de 2009, dia da Imaculada Conceição de Maria, 31ª. semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Quando voltamos nossas vistas para o mundo a nossa volta e vemos a barbárie que impera entre nós, pouca coragem nos resta (para não dizer nenhuma) para voltarmos nossos olhos para o mundo interior de nossa alma e perceber que as águas turvas que inundam a sociedade são apenas um reflexo simiesco das águas pútridas que banham nosso ser. E, para meditarmos sobre essa covardia espiritual que impera em nós e na Cristandade, há um mistério do Santo Rosário que ilumina-nos muito bem no que toca esse ponto. É o terceiro mistério doloroso (Mt XXVII, 27-31): a coroa de espinhos.

Nosso Senhor é levado ao palácio do governador e rodeado por toda uma guarnição. Um Homem todo martirizado pela violenta tortura que lhe fora imposta quando estava preso a uma coluna carecia de ser rodeado por uma corja de olhos medonhos, de uma roda de escarnecedores? Não, mas mesmo assim, de modo similar, continuamos a tratar a Verdade quando ela se revela aos nossos olhos dia após dia. Basta que algo verdadeiro fira nossa alma como se fosse um golpe de um dardo, salvífico, que mais do que depressa tratamos de nos juntar com nossos pares para silenciar ou com o desprezo, ou com a injúria, aquele que revela-nos a verdade, em especial, a verdade sobre a nossa baixeza geral.

Quando o Cristo flagelado se encontrou cercado representa o nosso cerco cotidiano e covarde diante da Verdade, pois a Verdade exige de nós uma profunda transformação, uma mudança de rumo em nossa vida, para melhor ou para pior. Não há possibilidade de nos manter indiferente frente a Ela. Ou aceitamos que a verdade nos molde de acordo com a sua retidão, ou nos esconder atrás das mentiras mais sórdidas e dos enganos e auto-enganos mais mesquinhos para podermos nos manter do mesmo jeitinho medíocre e cretino de sempre agindo tais quais os soldados descritos nesta cena Bíblica.

Eles despem o Filho do Homem, para humilhá-lo, do mesmo modo que nós adoramos achincalhar aqueles que se esforçam pelo caminho que nos foi ensinado pelo Verbo Encarnado. Adoramos insultar as pessoas devotas atribuindo-lhes apelidos pejorativos no intuito imaginário e doentio de, com essas afronta, estar desnudando-os de sua suposta hipocrisia sem perceber que a única hipocrisia reinante é a do nosso sorriso amarelado e escarnecedor, similar ao dos soldados romanos que zombavam de Nosso Senhor.

Ah! É claro! A coroa de espinhos. Uma colocada sobre a sua cabeça e outra na cana de sua mão direita. Essa coroação, simbolicamente, representa, ao menos para esse indigno escrevinhador, o anúncio do caminho a ser seguido pela Santa Madre Igreja, pelo Corpo Místico de Cristo. Se formos estudar com seriedade e sinceridade a história da Igreja de Cristo, a história de todos aqueles que moldaram a sua vida de acordo com os preceitos evangélicos, iremos perceber com clareza que o mundo sempre reservou para os Cristãos um coroar de espinhos de intolerância e de escárnio. Em especial na atualidade onde, mais do que nunca, a Igreja se vê invadida e vilipendiada por espinhos, por pessoas e doutrinas que são a antítese dos ensinamentos de Nosso Senhor, minando a sua cabeça.

As doutrinas do mundo e seus valores como o hedonistas, materialistas, niilistas e tutti quanti, são a coroa de espinhos que guiam os nossos corações a negar Nosso Senhor e Sua Palavra e que tornam a destra, o braço do justo, um membro agrilhoado, preso aos espinhos do mundo para retardar a realização da justiça em nossa alma. Os espinhos do mundo cercam a razão (a cabeça) para que dia a dia nos entreguemos mais e mais aos nossos instintos e assim não mais saibamos como agir de acordo com os desígnios do logos iluminado pela fé.

Isso mesmo. E nesse momento, creio eu, torna-se visível aos olhos de quem realmente deseja ver que o palácio é nossa alma, o governador covarde é nossa escolha de vida que, diante da verdade, lava suas mãos. Quanto aos soldados romanos, esses representam os nossos vícios morais e intelectuais que, embalados na bossa de nossa pusilanimidade, cerca a verdade com enxovalhos mil para melhor afirmar nosso simulacro de realiza fingida.

Sim, não nos achamos senhores de nossa vida, de nossos desejos, de nossas opiniões? Não agimos como se fôssemos soberanos? Bem, se assim o somos, onde se encontram os nossos domínios? Onde está o nosso poder? Somos tão medíocres que nos ufanamos de nossa impotência existencial, de nossa incapacidade de nos auto-conhecermos e realmente fazer algo de significativo com os míseros dias que compõem isso que chamamos de nossa vida tal qual Pilatos e Caifás.

Por fim, poderíamos perguntar: em que as zombarias dos soldados diminuíram a Majestade do Verbo Encarnado, em que o nosso espinhoso desprezo pela Verdade afeta a sua Realidade? Em absolutamente nada. A Verdade É o que É mesmo que todos digam o contrário e nós, somos o que somos, mesmo que imaginemos o contrário. Por isso, creio que esta seria uma oportunidade singular de retirarmos a coroa de espinhos que presenteamos o Cristo diariamente em nosso coração para que Ele derrame em nosso ser ao menos uma gota de sua sapiência para assim clarear nossa vista em nossa jornada por esse vale de sombras que é a sociedade contemporânea e com Sua mão direita auxiliar-nos a tornar o nosso caráter reto e justo de fato, não apenas de nome.

Detalhe: o mundo torce para que você não tome essa decisão, que você continue sendo um senhor dum mundinho umbilical de soberania fingida.

Pax et bonum
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