MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte XVI

Escrevinhação n. 801, redigida em 29 de dezembro de 2009, dia de São Tomas Becker e da Sagrada Família.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"A fé abre a porta ao conhecimento. A incredulidade a fecha."
(Sto. Agostinho)
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A mensagem de Nosso Senhor é uma Boa Nova de alegria e, por essa razão simples, luminosa. Por ser uma mensagem de Luz em um mundo encoberto pelo torpor das sombras dos tentáculos das trevas e de seus vassalos, tal anuncio faz-se doloroso e somente a partir das inomináveis dores vividas pelo Verbo Divino Encarnado, que se manifesta para nós o esplendor de sua glória. Isso! Os mistérios Gloriosos do Santo Rosário que em meio a sorrisos róseos e lágrimas de sangue Aquele que É nos apresenta toda a luz altiva de sua glória celestial.

O primeiro destes cinco mistérios é a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo (Jo XX, 1-18). Só de meditar sobre essa passagem da Sacra Escritura os átrios abrigados em meu peito palpitam em um ritmo não habitual. E se assim meu coração se porta, não é por frescura mundana não. É porque o Verbo que se fez carne está manifestando plenamente a Sua glória para o mundo.

O Cristo fora sepultado em um sepulcro novo, virginal. Bem, Nosso Senhor veio ao mundo através de um ventre virgem, imaculado. Mais do que natural que Ele ressuscite dos mortos em um útero virginal que é o sepulcro onde seu corpo havia sido colocado. Ele nasceu em uma gruta, em uma modesta manjedoura, e quando lá estava, uma estrela radiante projetou a sua luz sobre ele anunciando seu nascimento. De modo similar, quando Ele ressuscita dos mortos, um raio de luz empurra a pedra que vedava a entrada de sua cripta (Mt XXVIII, 2-3). Outro detalhe: três foram as testemunhas que de longe vieram para honrar o nascimento de Nosso Senhor, três foram as mulheres que lá estavam para honrá-lo e testemunharam que seu corpo não mais estava no local onde havia sido sepultado (Mc XVI, 1; Lc XXIV, 10).

A pedra removida, penso, é a pedra da idolatria, da vaidade, do orgulho, dos pecados que estão impregnados em nossa alma que são removidos com a ressurreição do Filho do Homem. Para nascermos de novo, para renascermos em Cristo, temos que permitir a remoção da pedra que jaz na porta do sepulcro de nossa alma, que nos impede de ver a luz que vem do Céu. Para removermos esses obstáculos simbolizados pela pedra precisamos agir de maneira sincera para frente à Verdade, sermos sinceros para com Deus.

Ser sincero para com Aquele que É não é fingirmos, dissimularmos aquele bom-mocismo politicamente-correto que aceita como “verdadeiro” todas as esquisitices que nos são apresentadas pela sociedade hodierna. Aceitar o engodo como verdade para não desagradar os outros é somente covardia. Ser sincero para com o Logos Divino é admitirmos, primeiramente, que somos fruto da Vontade Celeste e não o contrário porque Ele é Aquele que estrutura a realidade, Ele é a inteligência que está por trás de tudo que é inteligível e misterioso e não nós e nossa débil condição e pífios desejos. Ser sincero perante o Altíssimo é reconhecer quem realmente somos e aceitar que o Logos Encarnado nos transforme em algo que realmente seja elevado.

No Evangelho de São João (XX, 2), este nos diz que as mulheres logo após a visão que tiveram correram para anunciar o que havia ocorrido dizendo: “Retiraram do sepulcro o Senhor e não sabemos onde o puseram”. Assim o disseram para Simão Pedro (o bom ouvinte que se tornou pedra) e para o discípulo amado (o agraciado por Deus), que saíram correndo em direção do sepulcro e daí em diante, o Evangelista não mais se refere ao nome do discípulo que estava junto com São Pedro. Por quê? Será que assim procedeu apenas por um uso refinado da linguagem? Creio que não, ainda mais em si tratando da Sagrada Escritura inspirado por Deus.

O discípulo não nominado é você, sou eu, somos todos nós, que estamos diante do sepulcro de nosso coração, mas não tivemos a coragem e a ousadia de entrar para testemunhar, mesmo tendo chegado primeiro. Mas São Pedro, a pedra sobre a qual se edifica o Corpo Místico de Cristo, a Santa Madre Igreja, chega junto de nós adentra, e dá testemunho para nós desta Glória, desta via de iluminação da alma humana. Agora, cabe a cada um dar o passo seguinte: adentrar em nosso coração e testemunhar vivamente a Verdade. Para tanto, devemos ouvir os ensinamentos que nos são trazidos por aquela que é Mãe e Mestra (mater et magistra), pelos exemplos vivos e pela obra dos Santos e Santas para que nasça em nós a necessária coragem de tornarmo-nos testemunhas de Cristo, testemunhas vivas da Verdade.

Ou então, podemos abdicar de ser testemunhas do Logos Divino Encarnado e nos reduzir a condição dos guardas que estavam junto ao Santo Sepulcro (Mt XXVIII, 4): paralisados, tremendo, mortos de espanto. Ele está em nosso coração e nós, por escolha (im)própria, muitas das vezes, preferimos ficar fora de si, para não termos de olhar para Ele, a Verdade, face a Face, para não saber quem nós de fato somos e quem deveríamos realmente ser.

E quando nos deparamos com a Luz que vem do Céu, com o sinal que anuncia o seu retorno da mansão dos mortos, ficamos mortos de espanto. O espanto, como nos ensina o filósofo grego Aristóteles, é a pedra angular para aprendermos e amadurecermos desde que, nossa alma esteja tencionada pelo desejo de conhecer a Verdade. Quando abdicamos de conhecê-la e quanto Esta se revela para nossas vistas, o que temos? Simplesmente um idiota, espantado, por descobrir que o mundo é maior que as suas reles preocupações. Paralisado, por descobrir a enormidade de sua impotência substancial.

Mais do que naqueles tempos, a Verdade está entregue nas mãos dos pecadores para ser julgada, condenada, flagelada, crucificada e sepultada em nosso coração. Os pecadores somos nós, obviamente, e todos os dias estamos sendo convidados a testemunhar a ressurreição do Cristo. No dia à dia, muitas das vezes, lá estamos nós, agindo tal qual Herodes, Caifás, Pôncio Pilatos e como os guardas. Mas também, temos a oportunidade de adentrar o sepulcro que jaz em nosso coração e, testemunhando o que lá ocorreu, renascermos verdadeiramente com a verdade que se revela sobre nós através da Verdade, que é Cristo.

Ou podemos aceitar nos perder entre livros estúpidos, entre os conselhos de douto-ignaros, palpiteiros de plantão, ou entregando-nos às ideologias materialistas, hedonistas, niilistas totalitárias, que apresentam as mesmas loucuras com palavras diversas como uma pseudo-salvação para o mundo. Em fim, podemos afirmar que o mundo e nossa escravidão confessa a ele, ou nos afirmar em Cristo, que É a Verdade e, por isso mesmo, nos liberta.
Pax et bonum
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