MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte XV

Escrevinhação n. 799, Redigida em 21 de dezembro de 2009, dia de São Pedro Canísio.

Por Dartagnan da Silva Zanela

“As almas! As almas! Se alguém soubesse o preço que custam”.
(Padre Pio)

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Não é em uma única ocasião em que temos de ouvir uma e outra pessoa afirmar, com ares de indignação, que não entendem porque nós, Cristãos, representamos a imagem de Nosso Senhor Crucificado. Esses indivíduos viam e vêem em tal gesto um sinal de certa impiedade ou de falta de amor no coração. Ora, faz-me rir tais ponderações. Digo isso, pois tais incompreensões advindas do coração dos homens modernos frente ao quinto mistério doloroso, a crucificação de Nosso Senhor (Jo XIX, 16-22), nos revela uma triste imagem do que nos tornamos nos dias hodiernos.

Em outra ocasião, tivemos a oportunidade de partilhar algumas reflexões sobre esse doloroso mistério em nossa escrevinhação REFLETINDO SOBRE UM DOS MUITOS MISTÉRIOS (disponível em nosso site). Mas, como os ensinamentos Sacros são infinitos e nossa capacidade de compreensão diminuta, Eles estão sempre nos ensinando algo a mais, algo que antes havia escapado à nossa parva compreensão.

Dito isso, vamos em frente. A crucificação é o grande sinal do amor de Deus por todos nós. Mas, que tipo de amor é esse? Aliás, quando lemos na Boa Nova a palavra amor ela corresponde a mesma realidade humana que designamos com essa palavra? Provavelmente o que Deus está nos comunicando através da Santa Escritura não é o mesmo que o mundo quer nos persuadir a aceitar como sendo a forma mais elevada de amor. Ora, o amor pode ser erótico, carnal, ou ser um sentimento de afeto, de “querer bem” de modo virtuoso, ou então um gesto de doação, de sacrifício. Não precisamos nem dizer que o primeiro tipo é o que se faz imperar no mundo moderno e o segundo e o terceiro que se fazem praticamente incompreensíveis nos dias atuais.

Na sua primeira acepção, podemos dizer que o amor está centrado primeiramente em nossa pessoa, na satisfação de nossas pulsões mais primárias, onde a “alegria” se realiza em nossa alma quando os gritos ululantes de nossa carne são saciados, quando os clamores do mundo fazem eco em nossos átrios. Trocando em miúdos: o mundo estará bem se eu satisfizer todos os “meus desejos”. Caso contrário, que tudo caia ladeira abaixo. Ou seja: nada mais, nada menos que uma manifestação egocêntrica dissimulada das mais variadas maneiras.

Porém, o amor de Cruz é totalmente distinto do amor mundano e da carne. O amor de Cruz tem o seu centro em Deus, na Vontade Daquele que É, mesmo que a nossa carne diga o contrário, mesmo que o mundo clame pelo fracasso de nosso gesto com insultos e provocações. Esse é o amor Evangélico, esse é o amor que Nosso Senhor nos conclama a vivenciar através de seu sacrifício no alto do monte Calvário.

E podemos ir um pouco mais longe, se o amigo leitor nos permitir. O amor mundano e carnal nos faz fraco, frágeis. Para resumir o enrolo, nos reduz a mais obtusa idiotice, pois acabamos por reduzir toda imensidão da Criação à pequenez de nosso ego, à insignificância de nossos desejos umbilicais. Todavia, como o mundo é imensuravelmente maior do que nosso umbigo, toda vez que este não se encaixa e não satisfaz o nosso centro carnal, nos entregamos à auto-vitimização fingida e hipócrita. Não é por menos que atualmente cada vez mais aumenta o número de pessoas biologicamente adultas que são psicológica e moralmente como crianças mimadas.

Porém, o amor doação, o amor sacrifício, nos faz grande. Ele dilata as fronteiras de nossa percepção da realidade e, consequentemente, amplia nossa consciência sobre a vida e sobre o seu sentido. O amor sacrifício nos torna maior do que nosso ego e do que nosso umbigo porque aceitamos que a Vontade Divina se realize, permitindo que o Criador infunda em nós aquilo que nos torna mais nós mesmos do que aparentemente somos. Esse amor que nos é ensinado pelo Cristo nos torna fortes quando estamos fracos e nos move a perceber o quanto somos fracos quando nos sentimos fortes (2Cor XII, 7-8), porque esse amor nos dá a verdadeira medida da realidade que, literalmente, é desdenhada pelas vistas de nosso coração quando temos como centro da vida os nossos pequenos e pífios quereres.

Quando procedemos assim, acabamos por tirar o Logos de centro de nossa vida e colocando o que há de mais rasteiro em nós como se isso fosse o centro da criação. Não é à toa que a maioria das pessoas são incapazes de compreender a vida de um Santo, uma vida de sacrifício da própria vontade em nome da realização da Vontade Divina. A situação é tão tragicômica que, em nossa mediocridade ideologica e tecnicamente auto-justificada, doentiamente imaginamos que todas as pessoas são semelhantes a nós ao mesmo tempo em que somos incapazes de perceber toda essa baixeza que habita e se realiza em nós. Simplificando: insultamos os outros daquilo que nós somos.

Doravante, se prestarmos atenção à Cruz, perceberemos algo muito simples: ela liga os quatro pontos cardeais (as quatro virtudes cardinais – prudência, justiça, fortaleza e temperança), ela liga os quatro planos da existência (o finito e temporal ao infinito e eterno) tendo em seu centro o Logos Encarnado. Sacrifica-se no centro da cruz a humanidade de Cristo para o esplendor de sua Divindade; sacrifica-se em seu centro a vontade humana para realização majestosa da Vontade Divina; imola-se nas traves cruzadas no alto do monte Gólgota, das cabeças “pensantes” deste mundo a prepotência que impera no coração humano para que verdadeiramente humano o nosso coração se torne.

Por essa razão Nosso Senhor nos diz para que tomemos a nossa Cruz e o sigamos (Lc IX, 23-25; Mt XXIII, 24; Mc VIII, 34). Sem tomarmos a cruz não teremos a redenção, pois ainda estaríamos muitíssimo apegados aos nossos desejos e ao mundo. Não temos como seguir o Messias se não abdicarmos de nossa pequenez, não temos como renascer em Cristo como um novo homem se não sacrificamos o velho, não podemos falar que realmente somos convertidos se ainda ocultamos nos vestíbulos de nosso coração a abominável torpeza que permitimos, que aceitamos, imperar em nossa vida.

Contemple na imagem da cruz tudo aquilo que Deus fez por nós e que nós, do alto de nossa mediocridade, olhamos com desdém para ocultar a nossa incapacidade de amar nossos semelhantes como Ele nos amou, para dissimular nossa incapacidade voluntária de aceitar que nascemos para ser mais do que atualmente somos, mais do que nossos desejos anseiam que sejamos, mas que Ele, através do sacrifício da Cruz espera que sejamos. Que sejamos maiores do que os nossos olhos são capazes de ver e compreender.

[continua]

Pax et bonum.
Feliz Natal e um abençoado 2010 para todos.
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