MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte XIV

Escrevinhação n. 797, redigida em 14 de dezembro de 2009, dia de São João da Cruz e de Santo Esperidião.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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São Pedro de Alcântara em seu TRATADO DE LA ORACIÓN Y MEDITACIÓN, nos apresenta preciosas orientações para nos auxiliar em nossa vida interior e, dentre essas instruções, ele nos chama a atenção para alguns temas que devem se fazer presente em nossas meditações diárias sobre os ensinamentos Sacros e, um dos temas basilares, apresentados em seu tratado, são as dores de Nosso Senhor para que tenhamos uma medida real do que é dor e assim mensuremos o quão suave são as dores que afligem a nossa carne, o nosso ego e a nossa alma.

Dos cinco mistérios dolorosos, na missiva de hoje, procuraremos dedicar à tensão de nossa pena digital ao quarto, que é a subida dolorosa ao Calvário (Lc XXIII, 26-32). O próprio enunciado deste mistério nos chama a atenção para uma verdade auto-evidente e, por essa mesma razão, tão desdenhada por nós que vivemos no ciclo moderno.

O Cristo está retornando para o Pai. Para tanto, ele está subindo para um monte, o monte dos crânios, para ser imolado, para ser sacrificado por ímpios como eu e você.

Ora, o caminho para a Verdade nunca é um caminho breve e muito menos suave. Ele é duro e para podermos realmente permitir a realização do esplendor da Verdade em nosso coração e em nossa vida, temos de estar dispostos a realizar o sacrifício necessário que, fundamentalmente, não deve ser feito para o mundo, mas para as alturas, acima dos crânios, acima das intenções e pensamentos turvos que populam as cabeças das pessoas que tem sua alma absorvida e tolhida pelos males do mundo, males estes que nos são advertidos por São João em sua primeira epistola (II, 12-17).

E para elevar o nosso olhar e nosso sacrifício acima daquilo que habita os crânios deste mundo, temos que nos dispor a subir o monte para sacrificar nossa vontade, para entregarmos o nosso ser aos pés da Verdade. Tal prática pode, e penso eu que deve iniciar-se com pequenas verdades e mesmo com elas, já sentimos o peso da farsa que estava sobre nós e em nós e o quão salutar é termos as feridas e a face lavada com as águas caudalosas da liberdade (Jo VIII, 32) que nos é ofertada pela Logos Encarnado.

E é claro que procedendo dessa forma os problemas com o mundo não acabarão. Pelo contrário, apenas começarão. Porém, com uma diferença: eles não mais lhe afetarão como antes, porque a Verdade nos fortalece, porque Ela nos revela quem realmente nós somos e quem necessariamente demos ser. Quando aceitamos isso, pessoalmente, literalmente não vemos mais as vozes do mundo como uma autoridade, mas apenas como excremento, como refugo e é isso que a autoridade das forças do mundo é diante do Logos Encarnado, diante da majestade da Verdade, como nos ensina São Paulo (Fil. III, 8).

E assim o Cristo sobe ao Calvário, para ser imolado. Silencioso e altivo, mesmo sendo o tempo todo acompanhado de uma turba ignóbil que o insultava, que o provocava para ver se conseguiam assim incitar Nele uma manifestação de fúria, de revolta ou de indignação. Mas não. Lá estava Ele, impávido e firme como um rochedo esplêndido. E detalhe: Ele poderia ter reduzido a todos a subnitrato de pó de coliformes fecais, mas não o fez.

Nós, por nossa deixa, não apenas nos indignamos e nos revoltamos com facilidade como também ensinamos e reverenciamos isso como se tal prática fosse a sublimidade da alma humana. Enfrentar a multidão mundana colocando-a no seu devido lugar, a insignificância, é o que o Cristo espera que façamos em nossa vida, para merecermos beber da fonte de água viva. E o que ensinamos hoje como primor de cidadanite? Seja revoltado, seja indignado e assim deixe que as tensões do mundo dominem o seu olhar para que você se sinta dia após dia menor e mais e mais impotente diante dos desafios da existência e das exigências da liberdade que apenas pode ser adquirida pela aceitação da Verdade.

Doravante, o que mais o mundo moderno faz com a alma humana é reduzi-la a um nível de total fragilidade, chegando a raia de não mais sermos capazes de enfrentar os mais insignificantes problemas de nossa vida sem termos de recorrer a uma "otoridade" advinda das potestades estatais ou das multidões ululantes. Por não sermos capazes de nos auto-afirmar como pessoas, carecemos da confirmação externa de nossos atos e pensamentos. Por não mais nutrirmos a tensão espiritual, interior, em nosso horizonte, acabamos por permitir que as tensões mundanas, exteriores, nos moldem. Para averiguar isso, basta que volva as vistas para a insegurança que se faz presente nas ações das pessoas na sociedade moderna, na nossa maneira de encarar a vida onde confiamos mais no consenso que grita suas dissimulações de verdade do que na própria Verdade.

Penso que, por essa razão, Nosso Senhor diz, para as mulheres que estavam chorando, as seguintes palavras (Lc XXIII, 28): "Filhas de Jerusalém, não choreis por mim. Chorai por vós e por vossos filhos". Bem, Jerusalém significa temor de Deus, temor íntegro e perfeito. As filhas de Jerusalém e seus filhos somos nós que choramos diante dos absurdos do mundo moderno, de nossos absurdos pessoais, e apenas somos capazes de ficar a lamentar, a choramingar pitangas, a prantear nossa desídia espiritual, nos negando a carregar a nossa cruz e a seguir o nosso calvário para nos libertar das compulsões deste mundo que tanto trabalha para que desdenhemos e esqueçamos do Testamento que nos foi legado.

Mas não nos esqueçamos. Lembremos sempre que a Jerusalém Celeste habita o âmago de nosso coração e que, infelizmente, é pouco visitada por nós. O temor de Deus é a aceitação da Verdade, pura e simples. Negar a Verdade é um claro sinal de ignorância voluntária, nutridos por nosso orgulho, por nosso desejo de sermos maiores e mais “piedosos” que a Verdade. É o mesmo que reunirmos dois conjuntos de dois objetos e afirmarmos que os dois conjuntos, juntos, não são quatro objetos, que tal resultado seria apenas uma arbitrariedade. Meu caro, Deus não é arbitrário, Ele é real. Arbitrária são as nossas escolhas, os nossos desvios, a nossa vida fingida de suposta superioridade mantida com títulos e "honras" vulgares.

Subir o calvário, interiormente, é recuperar a integridade e a perfeição que perdemos no correr de nossas escolhas, de nossos pecados. É sacrificar o nosso orgulho e a nossa vaidade que inundam a nossa cabeça, procurando caminhar par além dela, seguindo o que nos é ensinado pelo silencioso exemplo Dele, do Logos Encarnado. Caso contrário continue a cercar a Jerusalém de seu coração, destruindo-a e com ela, você mesmo, o seu eu real, porque você foi incapaz de compreender que as forças sombrias da farsa na podem contra aquele que de maneira abnegada carrega a sua Cruz para chegar acima das cabeças ocas do mundo.

Em fim, o Calvário é para todos, mas a subida é sua.

Pax et bonum
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