MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte XII

Escrevinhação n. 794, redigida em 01 de dezembro de 2009, dia de Santo Elígio e da Bem-Aventurada Maria Clementina Anuarite Nengapeta, dia de todos os Santos.

Por Dartagnan da Silva Zanela

”Seja perseverante nas orações e nas santas leituras”.
(Santo Padre Pio de Pietrelcina)

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Segundo mistério doloroso: flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo atado à uma coluna (Mt XXVII, 11-26). Provavelmente, o mistério que mais ilumina a pequenez de nossa alma, que melhor alumia os recôncavos de nosso ser e denuncia para nossas vistas todas as máculas que tornam o odor de nossa alma algo insuportável.

Quando partilhamos nossas pequenas reflexões sobre os mistérios do Santo Rosário não estamos a falar de um reles sentimento subjetivo que toma conta de nossos átrios a tal ponto que nos surge a necessidade de externá-los, não mesmo. Todos os mistérios que contemplamos através da recitação silenciosa do Terço é um caminho que nos foi apontado pela Santíssima Trindade para que possamos ter uma visão mais clara da realidade, da vida, do mundo e do sentido de nossa existência, de nossas potencialidades e fraquezas.

Ao nos referirmos à Nosso Senhor Jesus Cristo, estamos nos referindo a Sapiência, ao Logos Divino Encarnado. Na sua pessoa temos a manifestação da sabedoria divina através de Seus ensinamentos e da forma como Ele viveu entre nós. E esse é o ponto fundamental a ser destacado, pois, quando nos referimos aos saberes religiosos não estamos nos referindo ao um mero artigo de opinião pessoal, mas sim, a um elemento fundante e estruturante da realidade. É claro que a compreensão disso torna-se um tanto complicada para o homem moderno com sua vista tolhida pela mentalidade materialista, hedonista, relativista e cientificista reinante em nossos dias. Todavia, creio que esse mistério nos apresenta um significativo feixe de luz para as meninas de nossos olhos.

Como todos sabemos, o Cristo foi flagelado brutalmente (de acordo com os costumes da época) preso à uma coluna. Entretanto, antes disso, Nosso Senhor disse a Pilatos quanto este perguntou se Ele era rei que (Jo XVIII, 37): "Para isso eu nasci. Para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz". Ou seja: quando o Cristo é flagelado, lembremo-nos claramente que o que está sendo flagelado é a Verdade. E está sendo flagelado por escolha nossa, pois a escolha foi feita pela multidão e ao invés crerem no que seus olhos estavam testemunhando, preferiram seguir o que as vozes dos sacerdotes diziam e o que a multidão sugeria de maneira maliciosa. Com a libertação de Barabás a mentira, a dissimulação e o crime foram às escolhas feitas pela multidão.

Ora, meu caro Watson, e o que nós fazemos praticamente todo santo dia senão negar a verdade? Diuturnamente negamos pequenas, médias e, inclusive, grandes verdades, em nome de nosso conforto emocional momentâneo, não é mesmo? Ouvir e pronunciar a verdade é um exercício espiritual fundamental na vida de todo ser humano que realmente deseje seguir pela senda da procura da perfeição. E não estamos falando do pronunciar as verdades sobre os outros, mas sim, de ouvirmos as verdades sobre nós, de apontarmos as verdades sobre nossa indigna vida, sobre aquelas sutilezas que, em regra, não teríamos tanta vergonha se nosso vizinho descobri-se, mas que, choraríamos de arrependimento quando nos colocássemos desnudos diante de Deus, diante daqueles que É.

Seguir o Cristo é procurar a Verdade vivendo uma vida verdadeira nos fazendo sinceros para conosco mesmo para no correr de nossa existência poder nos auto-conhecer e assim, com o auxilio do Paráclito, endireitar nosso passo e moldar nossa vida através do molde da Verdade e não mais de acordo com a forma da iniqüidade da vida cotidiana. A verdade é uma disciplina que se aprende a luz das palavras do Evangelho, da prática da oração em Espírito e Verdade, uma via onde se procura a realização daquilo que é superior em nossa realidade inferior para que assim nossa inferioridade, gradativamente, vá se convertendo naquilo que realmente devemos ser e nos tornando auto-conscientes dessa transformação dessa realidade.

Pois é, e o que fazemos em nosso dia a dia cara pálida? Prendemos a Verdade na coluna da hipocrisia e a açoitamos com os tentos de nossa arrogância, de nossa vaidade, do orgulho que impera em nosso intelecto que, por sua deixa, transforma o nosso coração em uma nodoa de sobras e dissimulação. A começar por agora, neste momento em que você está deitando as suas vistas nestas turvas linhas onde a cada palavra lida (compreendida ou não) procuramos auto-justificações para nossa desídia espiritual e para todas as vezes que agrilhoamos o Cristo e o açoitamos em nosso coração.

Aliás, se fôssemos listar o número de mentiras que contamos sobre nós mesmos e comparássemos com uma listagem de verdades que francamente conhecemos e reconhecemos sobre nossa vida, mais do que depressa compreenderíamos a gravidade de nossa impostura, rapidamente aprenderíamos o quão profundo é esse mistério e o quão doloroso ele se revela em nós.

Devido aos engodos da vida moderna acabamos por adotar como critérios de "verdade" a opinião dos pares, das massas, dos estupidamente ilustrados e doutamente ignorantes e nos esquecemos que a única medida de verdade que existe é a Realidade que nos é revelada primeiramente pela centelha divina que habita em nós e pela ação discreta e eficaz do Espírito Santo em nossa vida.

Apenas a título de ilustração, lembro aqui aquela velha e tosca afirmação de que as laudas da Sagrada Escritura são contraditórias. Espere aí doutor Fausto, por um acaso a contradição que você vê nas Páginas Santas não seriam simplesmente um reles reflexos de sua alma contraditória imersa em uma vida postiça do que algo inerente as suas Palavras inspiradas? Será que esses indivíduos nunca se perguntaram por que pessoas como Santo Agostinho, São Boaventura, São Tomás de Aquino, Santo Afonso de Ligório e tutti quanti nunca chegaram a uma conclusão tão estulta como essa?

É que essas almas Santas, ao contrário de nós, se recusaram à açoitar o Cristo em seus corações e permitiram que a Verdade os molda-se. Essas Santas almas, diferentes deste que vos escreve e de você, não flagelaram a Verdade, mas sim, sofreram com Ela e com sua mãe Maria, exemplo de vida humilde dedicada à realização pela da Verdadeira Vontade.

A escolha é sua. O açoite é seu.

Pax et bonum
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