MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte VIII

Escrevinhação n. 790, redigida em 03 de novembro de 2009, dia de São Martinho de Porres e de São Humberto de Liège, 31ª Semana do Tempo Comum.


Por Dartagnan da Silva Zanela


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A proclamação do Reino de Deus (Mc I, 15). Eis o terceiro Mistério Luminoso do Santo Rosário ao qual, todo aquele que deseja, sinceramente, permitir que os átrios de sua alma sejam realmente clareados, deveria entregar francamente se entregar à sua meditação e assim desvendar no âmago de seu ser as luzes que lhe foram confiadas no ato de sua criação e bem como as sombras que dia à dia vão se assenhorando de sua alma devido a frugalidade de nosso olhar viciado pelas miudezas prometidas pela sociedade moderna com ares de glória, de vanglória.


"Completou-se o tempo. Chegou o reino de Deus. Convertei-vos e crede no Evangelho". Assim, com essas palavras Nosso Senhor anunciava a Boa Nova por onde os seus pés o levavam. Para refletir sobre esse Mistério, permita-nos iniciar pela última frase. Para mim, ao menos, a primeira impressão que vem à mente é de que crer no Evangelho implicaria na conversão do indivíduo. Não exatamente, não é mesmo?


Sejamos mais claros: o ato de crer é tão só um ato de confiança. Aliás, ter fé em algo ou em alguém é simplesmente ter confiança na pessoa ou no algo em questão. Quando confiamos no anuncio da Boa Nova e, principalmente, Naquele que está anunciando-a, isso significa simplesmente que nós cremos em sua realidade. Na realidade de Quem o anuncia e do que está sendo anunciado. Porém isso não basta. É preciso a conversão da alma crente no Evangelho e conversão implica uma postura muito mais profunda do que a mera confiança. Converter-se significa transformar-se. Por essa razão simples que a Santa Madre Igreja apresenta a figura dos Santos que, segundo as palavras de LEO TRESE, a vida dessas pessoas são legitimas obras de Deus sobre a terra.


Os Santos e Santas são exemplos de pessoas que permitiram que suas vidas fossem transformadas pelo Evangelho ao tal ponto que elas mesmas se tornaram uma transcrição viva da Boa Nova. Aliás, como olhar para a vida de um Santo Antão, de um São Francisco ou de um São Cura de Ars e não vermos na maneira como essas pessoas viveram as suas vidas como uma parte viva do testamento de Deus? Somente uma pessoa cega pelo seu orgulho é incapaz de perceber isso, aliás, de confiar sinceramente no que seus olhos estão vendo e que sua alma está testemunhando.


Doravante, nunca é demais lembrar que tanto o ato de crer como a conversão são atitudes interiores da alma humana. A primeira pode ser fingida, macaqueada. A segunda não, pois tal postura exige o total comprometimento do ser do indivíduo com o Ser presente na Boa Nova e é neste ponto que o bicho pega. A realidade, a Verdade, por definição, é o que É, sem rodeios ou fricotes. E se a realidade assim o É, quem o diga Aquele que É a estrutura do real.


Claro que para nós, seres humanos dos idos modernos, que vivemos diuturnamente um teatrinho, fingido, imaginamos que isso não é a norma na existência humana, em especial nesta terra de desterrados chamada Brasil onde nos acostumamos a nivelar a grandeza humana pela sua miudeza. Tal impostura é, em sim, perversa simplesmente porque nos torna incapaz de perceber a grandeza e, se nos tornamos ineptos para tal empreitada, como poderemos permitir que a Grandeza do Evangelho toque o cerne de nossa alma para que essa magnificência nos transforme em algo maior do que somos neste momento?


Por isso é tão importante cultivarmos em nós um profundo e sincero sentimento de veneração por tudo aquilo que é digno de tal sentimento. Por essa razão, creio eu, que o escritor Thomas Mann nos ensina que "Ninguém alcança o que não possui de nascença, e o que te é estranho não o podes cobiçar". Ora, Deus Pai nos criou a sua imagem e semelhança e a vinda do Logos Encarnado é um sinal auto-evidente para que todos lembrem de nossa origem, para que não nos esqueçamos do porquê fomos criados.


No fundo, a Boa Nova nada mais é do que a Primeira: nascemos para Deus e não para o mundo. Antes de nascermos fomos sonhados por Deus e não meramente largados no mundo para evoluirmos biologicamente em nossa degeneração moral presente hodiernamente.


"Que cada um fique, diante de Deus, na condição em que foi chamado" (1Cor VII, 24), conforme nos ensina Aquele que É através das palavras inspiradas escritas por São Paulo. Deus não nos chamou para a baixeza, para a degradação moral e espiritual e muito menos para trocarmos nossa salvação pelas vilezas do mundo, mas sim, para sermos a sua imagem e semelhança (Gen I, 26-27), e nos criou para dominarmos o mundo, não para nos sujeitarmos a ele. Para tanto, temos que primeiramente dominar o nosso canal de ligação com esse mundo, que é a carne, a nossa carne, dominar toda ordem de forças infra-humanas que habitam em nós para que, deste modo, o Reino de Deus impere em nosso coração. Por essa razão que tudo que impera sobre a terra e está debaixo do Sol é apenas vaidade, nada mais do que vaidade.


O Reino de Deus chega para todo Aquele que se esforça todos os dias em relembrar para que foi criado, para todo aquele que procura dedicar a sua vida vivendo em seu coração o Reino onde a Verdade impera irradiando a sua luz nas sobras do mundo, permitindo que o seu coração transfigure-se num Sol radiante à exemplo do Cristo, trazendo luz para a caverna da existência descrita pelo filósofo grego Platão onde todos encontram-se agrilhoados em suas correntes de aparências e superficialidade espiritual. E é claro que, as pessoas da Judéia agiram de modo similar às pessoas descritas na alegoria platônica, ao pedirem a crucificação do Cristo e que, por sua deixa, são semelhantes a todos aqueles que desprezam, ridicularizam e perseguem todos aqueles que procuram seguir o Caminho, a Verdade e a Vida até os dias de hoje.


Por isso completou-se o tempo. Ao afirmar isso Nosso senhor nos aponta o Caminho para tornarmo-nos completos, dignos de seguir à eternidade. Completou-se o tempo em que os ídolos tinham pelos poderes sobre nós, pois da Eternidade nos veio a Verdade que nos revela a Vida que há em nós. Há dois mil anos foi apresentada essa senda de luz e, mesmo assim, a maioria absoluta das pessoas na maioria do tempo de suas vidas continua a abraçar-se aos ídolos mundanos que apenas nos faz cair mais e mais fundo no abismo da degradação, da perdição advinda da ignorância e da leviandade.


Mas sempre há tempo para permitirmos que Ele nos complete e nos eleve à plenitude do Reino desde que, sinceramente, creiamos na Boa Nova e convertamos a nossa vida sob a Luz do Evangelho tal qual nos testemunham todas as almas Santas que permitiram que a obra de Deus se fizesse nelas. Para tanto, é fundamental, como nos ensina Santa Catarina de Senna, que aceitemos a obra primeira Daquele que É em nossas vidas, que é a verdade sobre nós, sobre nossa pessoa. Verdade essa que nos esquivamos tanto, que tanto tememos ouvir, mas que, sem a sua devida audiência não teremos como conhecer e realizar aquele que realmente devemos ser.


Enfim, queiramos ou não, o Reino está proclamado a muito, basta apenas nos lavarmos do encardume e das cracas de nosso orgulho com um bom banho de humildade e nos tornar homens por inteiro, sendo verdadeiros para conosco mesmo para sabermos realmente quem devemos ser diante da Verdade Universal.

[continua]


Pax et bonum

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