MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte X

Escrevinhação 792, redigido em 17 de novembro de 2009, dia de Santa Izabel da Hungria e São Roque Gonzáles.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"A misericórdia de Deus será sempre maior que a tua ingratidão".(Santo Padre Pio de Pietrelcina)

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Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até a consumação”. (Jo XIII, 1) Eis o quinto mistério luminoso, a instituição da Eucaristia. O que podemos escrever sobre esse mistério? Tamanha é a profusão de ensinos de luz que esse mistério engendra em nossa alma que fica difícil focar as vistas de nosso coração em apenas um dos feixes de luz que emana de sua letra Viva.


Todavia, há um luzir central nesse mistério que dá unidade ao seu brilho divinal, que é o amor. Essa abençoada palavra, presente neste mistério, não tem o mesmo significado da palavra “amor” que é repetida excessivamente por nossos lábios, pelas laudas da imprensa e pelos sinais de rádio e televisão. Mas o que significa exatamente o amor que se faz raiar nesta pequena passagem do Santo Evangelho?


Obviamente que não é essa compreensão sentimental barata que temos em nossa sociedade hodierna e muito menos aquela visão meramente racionalista-psicológica. Vale lembrar que ambas estão profundamente incrustadas em nosso imaginário formando um grande obstáculo na compreensão e assimilação do amor que nos foi ensinado pelo Cristo. Por essa razão que F. Schuon afirmava em seus escritos que tanto o sentimentalismo como o racionalismo eram dois dos grandes males do ciclo moderno. Mas, o porquê disso?


Ora, o amor como o Cristo nos ensinou não é o sacrifício. Amar, fundamentalmente, significa sacrificarmos a nossa individualidade em nome da Verdade, significa sacrificarmos nossos impulsos em nome da Vontade de Deus, significa abrirmos mão de nosso desejo de aderir à pulsão das multidões para aderirmos ao Corpo Místico de Cristo. O Cristão não é chamado, como nos ensina C. S. Lewis, nem ao individualismo e muito menos ao coletivismo, mas sim, para entregar a sua vida ao Cristo. Entregar nossa vida por Ele como Ele entregou-se por nós.


Entregar a vida ao Cristo, no contexto que estamos tratando nessa parva missiva, é nos entregarmos sinceramente para a Verdade que revela a verdade sobre nós. Significa abdicarmos de nossa vaidade, de nosso orgulho, de nossa leviandade, de nossa desídia, enfim, significa permitirmos que à Verdade que Ela nos plasme de acordo com a perfeição Celeste e não de acordo com as tentações terrenas.


É obvio que falar em perfeição espiritual no mundo contemporâneo tornou-se quase que blasfemo. Mas tal inibição nada mais é do que um estratagema do ignóbil inimigo decaído e de seus pares. Quando o Cristo passou do mundo para o Pai, Ele estava e está nos apresentando o caminho aberto por Ele através de Suas palavras ditas em Verdade para que possamos atingir a Vida.


Almejar a perfeição nessa vida é almejar a realização do Reino de Deus em nossos corações para assim podermos ascender ao Pai e, esse caminho, nos é apresentado pelo Sacrifício Pascal.


E vejam como o encardido, o senhor da mentira, é ardiloso. Vocês não acham por demais curioso que todas as perspectivas de vidas possíveis apontadas pela sociedade moderna, para a realização do ser humano em sua dignidade, são todas meramente contingentes, todas unicamente encerradas em uma perspectiva temporal, material e finita? Já repararam que é isso que é ensinado para as gerações de mancebos atuais? Esquecendo e mesmo desdenhado o memória do Sacrifício Pascal nós, gradativamente, vamos fechando nossa vista para a inteireza da realidade. Isso mesmo. Se Deus é a estrutura da realidade, como nos ensina Schuon, se ele é o motor primeiro de todas as coisas, como nos ensina Aristóteles e São Tomás de Aquino, como podemos pensar, explicar e agir na realidade desprezando a Sua existência e ação em nossa vida?


Sua ação é misteriosa, sim, mas um mistério que ilumina a nossa vida e nos inspira a nos torna mais perfeitos como o foram e o são todos os Santos e Santas. Todavia, na modernidade, trocamos esse mistério que inspira e ilumina pelos mistérios sombrios das ideologias revolucionárias que, ao contrário do Cristo, não se sacrificam a si mesmas pela redenção de todos, mas sim, sacrificam a todos, inocentes ou não, em nome da visão utópica doentia de homens embebidos em sua própria soberba. Todos querem mudar o mundo, mas poucos são o que aceitam ser mudados pelo Cristo.


Não são poucas as ocasiões em que nos queixamos que os outros não fizeram tudo o que acreditamos que eles deveriam ter feito por nós, entretanto, curiosamente o que nós exigimos que os outros façam por nós, nem mesmo a gente, na maioria dos casos, é capaz de fazer pela nossa própria pessoa. E aí ficamos lamentando a falta de amor no mundo e que as pessoas a nossa volta não nos amam como deveriam nos amar. E você, cara pálida, ama as pessoas (não o mundo) como o Cristo nos ama? Você realmente sacrifica parte de seu mundinho umbilical em nome do bem daquele que está à sua frente? Não? E, provavelmente, quando fazemos algo similar a isso, esperamos que a pessoa que foi alvo de nossa generosidade nos retribua para assim podermos sentir o engrandecimento de nosso já bem inchado ego.


E essa é a verdade que a Verdade deste mistério nos revela sobre nós e que nos convida a enxergar para podermos realmente remover todos os obstáculos que existem em nossa alma, em nossa vida, para o Pão da Vida poder nutrir-nos com a sua Luz e em sua Verdade.


Pax et bonum


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