MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte VII

Escrevinhação n. 789, redigida em 26 de outubro de 2009, dia de Santo Evaristo, 30ª Semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Só é possível transformar-se na medida em que já se é". (Novalis)

- - - - - - - + - - - - - - -

Como luz é que mais a alma do homem moderno necessita, reflitamos brevemente através destas simplórias linhas sobre o segundo Mistério Luminoso do Santo Rosário, o mistério das Bodas de Canaã (Jo II; 1-12). Três dias após ter escolhido os primeiros discípulos (Jo I; 35-51), Jesus parte para Canaã, para a terra prometida. Logo no início nos chama a atenção à relação do tempo de três dias para que o Cristo abra caminho pelos seus passos para Canaã. No caso, nessa passagem se antevê a Canaã Celeste que ele apresenta a todos nós após três dias de sua Crucificação, pois, a sua vida, paixão, morte e ressurreição é o caminho para as suas Promessas.

Lá chegando a sua mãe, a Santíssima Virgem, informa-lhe que o vinho da festa findara e pede que ele tome providências e manda que os serventes façam tudo o que ele lhes mandasse fazer. Bem, o milagre das bodas de Canaã é o primeiro milagre público de Jesus Cristo e, curiosamente, na falta de uma palavra mais apropriada, é realizado pela interseção da Santíssima Virgem.

Indo mais adiante quanto ao significado desta passagem da Sacra Escritura, não podemos nos esquecer jamais que Maria é aquela que aceitou plenamente a realização da Vontade de Deus em sua vida, apresentando assim o exemplo luminoso de como devemos nos portar diante da realidade e Daquele que É o Fundamento dela.

Doravante, é incrível como que com ares desdenhosos as pessoas na sociedade moderna se referem aos ensinamentos religiosos e aos Textos Sagrados, como se elas, com seus conhecimentos chulos de almanaque estivessem ao nível de realmente terem uma compreensão superior ao que nos é revelado pelo Criador através das Sagradas Páginas que, em sua complexidade, nos revela a profundidade do sentido da vida e da existência humana.

É mais do que corriqueiro ouvirmos pessoas levianas dessa monta afirmarem que o texto Bíblico é contraditório, que Ele é falho e blá blá blá. Ora raios, mas será que essas pessoas nunca pararam para se perguntar se não é a sua leitura que é falha? Será que elas nunca pararam para pensar que não é a Bíblia que é contraditória, mas sim, a sua alma? É bem provável que não.

Pois é, mas a Santíssima Mãe de Nosso Senhor não é como nós. Ela é sumamente humilde por aceitar plenamente a Vontade Daquele que É e, por isso, intercedeu junto ao Cristo para que fizesse algo. E Ele faz e o mais interessante é que os serventes obedecem prontamente sem saber claramente quem era aquele homem. Isso mesmo! Nós hoje sabemos que Ele é o Cristo e, mesmo assim, em muitos momentos de nossa vida, o desprezamos, o desdenhamos. Porém, aqueles serventes atenderam de pronto tudo aquilo que foi pedido por aquele ilustre desconhecido.

E passado dois milênios, tendo no correr deste tempo o Seu nome repetido inúmeras vezes pelos quatro cantos do mundo, Jesus Cristo continua a ser um grande desconhecido da maioria das pessoas, principalmente daquelas que se apresentam como sendo seus conhecidos e que estão a comemorar como Ele a festa de aliança da terra prometida. Ah! E como nos falta a fé a comemorar como Ele a festa de aliança na terra prometida, por das pessoas, principalmente daquelas que se apresentam como senque se fazia presente na alma daqueles servos indicados por Maria para atender aos pedidos do Logos Encarnado.

E detalhe: Jesus, o ilustre desconhecido lhes pede para encher as seis talhas de pedra com água, talhas essas destinadas à purificação dos judeus e, depois disso, manda que eles sirvam os convidados àquela água, sendo que todos esperam que fosse servido vinho. Se formos pensar de maneira fria, com olhos mundanos, o que foi solicitado aos servos era um grande absurdo. Mas eles ouviram o Senhor e realizaram prontamente a sua vontade, bem ao contrário de nós que nos recusamos a realizar prontamente à vontade de Deus, preferindo viver uma vida de absurdos, como é a vida que levamos em nossa sociedade.

Dito isso, não percamos de nossas vistas o que foi o primeiro milagre público de Cristo: a transformação da água para purificação que estava nas talhas de pedra em vinho de salvação, a transfiguração da água de nossa vida lavada de chagas em vinho da Verdade que liberta. Se formos mais ousamos, ao menos a esse mísero missivista assim aprece, as talhas de pedra representam a Igreja, pois é sobre Pedro (sobre a pedra) que Nosso Senhor edifica o seu Corpo Místico e a água que passar por essas talhas para ser servida no banquete da terra prometida, deverá se transfigurar através da humildade, da prontidão e da fé nas instruções e ensinos Daquele ilustre desconhecido.

E Este, meus caros, é o melhor vinho. Não é mais o vinho (sangue) da primeira aliança, mas sim, o vinho da nova e eterna aliança. De mais a mais, ao contrário do critério utilizado por todos, não é o melhor que vem por primeiro, mas sim, o de menor qualidade, pois, como nos ensina o filósofo grego Platão, o primeiro na ordem do Ser é o último na ordem do conhecer. Da mesma forma que nos primórdios a humanidade não estava preparada para receber o melhor vinho, que é o Verbo Divino Encarnado, nós, de nossa parte, demoramos muitíssimo mais do que devíamos, para nos preparar para receber legitimamente a Verdade que está presente neste vinho.

Para realmente aceitarmos a Verdade que nos é revelada pelo Evangelho é imprescindível que nos transfiguremos, que permitamos que as palavras da Boa Nova nos transformem em pessoas dignas de se fazerem presentes na mesa do Banquete das almas Santas, tal qual pede São Tomas de Aquino em uma de suas belíssimas preces. Ou seja: é de basilar de importância que, gradativamente, nos permitamos ser amoldados pela vontade do Pai e não mais pela nossa para que possamos realmente nos fazer mais próximos do Ser e não mais a imagem fugidia do nosso parecer.

Muito bem, e eis que Cristo Jesus parte para Cafarnaum, para a aldeia da consolação. Após os Seus primeiros sinais, realizados na terra prometida em meio à festa da aliança (bodas), o Galileu desconhecido deixa claro para todos aqueles que realmente querem enxergar a realidade. A realidade de que o Reino não se realiza neste mundo e em meio as multidões, mas apenas naqueles que aceitam a transformação proposta por Ele. Os sinais que ali foram anunciados nos ensinam que é nossa vontade (água) que deve se ajustar a verdade, tornando-se ela (o vinho) e não o contrário, como se tornou tão corriqueiro na sociedade hodierna.

Por fim, se você deseja, sinceramente, entregar-se humilde e pacientemente à Verdade, contrariando a pulsão reinante, alegra-se, pois a Verdade é o caminho da consolação quando tudo o mais se faz cingir pelas veredas da mentira e da falsidade.

E é só.

Pax et bonum

Comentários