A RODA DOS ESCARNECEDORES

Escrevinhação n. 783, redigido em 24 de setembro de 2009, 25ª Semana do Tempo Comum.
Por Dartagnan da Silva Zanela

“[...] vede o modelo que nos foi dado! Se o Senhor se humilhou dessa maneira, que faremos nós que, por meio dele, fomos, colocados sob o julgo de sua graça?
(São Clemente)
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São Tomás de Aquino, o doutor angélico, em sua obra CONTRA RETRAENTES, afirma que os professores: "[...] devem ser elevados em suas vidas, de modo que iluminem aos fiéis com sua pregação, ilustrem aos estudantes com seus ensinamentos, e defendam a Fé mediante suas disputas contra o erro". Conselho, como sempre, muito acertado que nos é dado pelo Aquinate. Pena que seja tão sumamente desprezado pelas pessoas as quais ele é dirigido.

Um professor é um ponto nevrálgico na vida de um jovem. A educação, enquanto guiamento da alma do indivíduo para sua maturação integral é um elemento basilar para a sadia constituição do ser humano. É claro que neste simplório libelo não estamos entendendo por maestro apenas aqueles que exercem formalmente o ofício deste sacerdócio ingrato.

Quando nos referimos ao fazer magisterial, estamos fazendo referência a todos aqueles que ocupam um papel central na vida social, que se apresentam como comunicadores, como formadores de opinião, como exemplos a serem imitados (mesmo que, realmente, não sejam exemplo de nada elevado).

Se formos pensar o “ser professor” dentro desta concepção dilatada, perceberemos o quanto é urgente a audiência deste conselho de São Tomás de Aquino. Atores, jornalistas, músicos, modelos, atletas, políticos e, é claro, professores, professam de modo consciente ou inconsciente, de maneira direta ou indireta, um sistema de valores que é absorvido, imitado e reproduzido por aqueles que confiam em suas pessoas.

As tenras gerações, aceitemos ou não, depositam um elevado sentimento de confiança em relação a nós e, em especial, naqueles que são apresentados e aceitos como sendo pessoas dignas de serem ouvidas. Para tanto, não há necessidade de que elas sejam retratadas com estas palavras, não mesmo. Basta apenas que ocupe um lugar de destaque em meio à multidão ululante tal qual ocorre na sociedade atual, decrépita em seus alicerces e decadente no horizonte apontado pelos seus indivíduos tido como exemplares.

Se você for uma daquelas pessoas com as vistas pasmadas por uma visão romântica da realidade que insiste em ver os educadores (por ofício mesmo) como heróis da resistência que estão lutando contra a corrente, tire o seu aparato cognitivo da chuva. Pelo contrário. Esses são apenas mais uma vil peça deste esquema degradante. Como idiotas úteis, infelizmente, mas o são.

Antes de mandar esse missivista pastar, reflita sobre a seguinte questiúncula: você já reparou que o que nosso sistema educacional melhor faz é repedir para as tenras almas as propagandas ideológicas dos modismos reinantes que são, literalmente, as mesmas que nos são apresentadas pelos outros canais de informação existentes na sociedade? Não? Então preste um pouco mais de atenção nesse detalhe, pequeno em sua sutiliza, todavia, mastodôntico em sua presença hegemônica.

Compare as patacoadas que se fazem presentes nos livros didáticos, com algumas informações que são vinculadas nas publicações populares, nos programas televisivos e nos discursos políticos. Compare e perceba, se desejar realmente perceber, que os valores ministrados são os mesmos através dos mais variados meios.

Por serem os mesmos, tais declarações trazem uma grande dose de segurança que em seu abuso obsceno da confiança e da credulidade das pessoas, em especial das jovens gerações, tolhem a curiosidade natural do indivíduo que é substituída pela reles conformação de sua percepção da realidade ao que as vozes a sua voltam afirmam ser real e não o que os seus olhos podem testemunhar.

Um exemplo flagrante deste estado de demência é o fato de todos ensinarem e acreditarem que a mídia manipula tudo e a todos e, as mesmas pessoas que afirmam isso, tem geralmente apenas como fonte de informação a dita mídia. Ora, como você pode emitir um parecer seguro sobre algo com base apenas naquilo que você mesmo afirma não ser digno de confiabilidade?

Esse dupli-pensar monstruoso, meus caros, é ensinado por todos nós que ocupamos um lugar central no processo educativo e, através de nossas palavras, gestos e exemplos, ensinamos aos nossos jovens como se auto-bestializarem.

Em tempo, lembramos aqui o que o mesmo Santo Doutor nos diz através de sua obra SUMA TEOLÓGICA, que: "Toda e qualquer coisa real possui a verdade de sua natureza na medida em que imita o saber de Deus" (I, 14, 12). Porém, hoje em dia, o homem moderno em sua soberba prefere imitar a si mesmo em sua confusão e crer que tal estado de espírito é digno de ser ensinado. Por perdermos a medida de nossa natureza, perdemos a medida de nossa ignorância e, inevitavelmente, do papelão ridículo que se tornou nosso modo de viver e de ensinar no dias hodiernos.

Por essas e outras que creio não ser um exagero afirmar que nossa sociedade e, fundamentalmente, nosso sistema de educação se converteu em uma grande roda de escarnecedores onde tudo que é digno é desprezado, tudo que é reto coloca-se sob a clave do preterir, onde tudo que é elevado é simplesmente desdenhado como loucura ou devaneio. A esse quadro de insanidade dá-se o nome de educação e, como dizem os garotos, dar esse digno nome a isso, “é pra acabar”.

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