MISTÉRIOS QUE REVELAM A VERDADE – parte VI

Escrevinhação n. 788, redigida em 20 de outubro de 2009, dia de Santa Maria Bertilla Boscardin, 29ª Semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Quem agiu mal odeia a luz".
(São Anselmo)
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Iniciamos a partir dessa missiva nossas reflexões em torno dos Mistérios Luminosos que foram proclamados pelo finado Papa João Paulo II, conforme a Carta Apostólica ROSARIUM VIRGINIS MARIAE que, como nos ensina o mesmo na referida carta que: “Cada um destes mistérios é revelação do Reino divino já personificado no mesmo Jesus”. Personificação essa que se torna modelo para todos aqueles que desejam seguir o Mestre imitando-o. Isso mesmo, imitar a Cristo, tal qual todos os Santos, Santas e Mártires fizeram de modo singular para assim propagar a luz dos ensinos vivos do Cristo através de sua, nada simples e nada fácil, imitação.

O primeiro dos Mistérios Luminosos é o Batismo no Rio Jordão (2 Cor V, 21; Mt III, 17). Quando o Cristo se aproxima de São João Batista para ser batizado nas águas do rio Jordão ele diz ao Nazareno (Mt III, 14): “[...] eu é que devo ser batizado por ti e tu vens ao meu encontro?” E o Cristo lhe responde (Mt III, 15): “Deixa estar por enquanto, porque assim é que convém cumprirmos toda a justiça”.

Antes de qualquer coisa, não podemos perder de nossas vistas que João, filho de Zacarias e Isabel, durante longo período pregou o batismo e o arrependimento de nossos pecados vagando pelo deserto, anunciando a vinda Daquele que batizaria com o Espírito Santo antes de estar diante Dele nas águas do rio Jordão. Ora, meus caros, e o que é o mundo (em especial, o atual) senão um grande deserto espiritual? João Batista caminha pelo deserto anunciando a Verdade, a necessidade de renunciarmos ao erro para que possamos receber a Verdade e o fez em meio ao deserto e se despindo do mundo.

Suportar o vazio desértico do mundo é uma tarefa que nos é imposta diuturnamente, mas que, infelizmente, não perseveramos como fez o Batista. Facilmente nos rendemos aos encantos do engano e do auto-engano, visto que, não é uma tarefa simples testemunharmos à Verdade vivenciando-a. De mais a mais, não existe e nunca existirá uma outra forma de testemunhá-la, gostemos ou não disso.

Pois bem, estando diante da Verdade Encarnada, que é o Cristo, São João não disse: “Viu! Eu falei! Está aqui ele!” Ele não fez como nós quando imaginamos ter razão em algum assunto sem ao menos conhecê-lo claramente. O Batista curvou-se diante da Verdade, pois sabia que mesmo perseverando nós nada somos diante de Sua presença. Não é a Verdade que deve ser amoldada a nossa vontade. É a nossa vontade que deve ser moldada de acordo com a Verdade.

Por Sua deixa, Jesus, a Verdade encarnada, levanta-o, pois é isso que a Verdade faz com os homens sinceros, e Curva-se diante dele para que Ele seja batizado pelas águas do rio Jordão derramadas pelas mãos de João, o Batista. Assim se cumpre a justiça, a devida medida que nos cabe a partir de seu gesto, onde o Logos divino se fez homem, sem majestade ou pompa, pequeno, para poder nos elevar.

Não nos esqueçamos que Jordão em hebraico quer dizer “Aquele que desce” e João, aquele que é “Agraciado por Deus”. Jesus é batizado pelas mãos daquele que é agraciado por Deus com as águas Daquele que desce nos apresentando assim o caminho a ser seguido por todos que desejam orientar os passos de sua vida pela vereda da Verdade.

Feito isso, Jesus colocou-se em oração e, nesse momento, eis que desce sobre sua cabeça o espírito santo, corporificado na forma de uma pomba que, tradicionalmente, simboliza a pacificação. Foi uma pomba branca que Noé lançou da Arca e que havia retornado com um pequeno ramo, uma folha nova de oliveira, um sinal de vida. Agora a pomba alva nos trás Aquele que é o sinal da Vida Eterna que passava muitas noites, inclusive a última, em um horto de oliveiras.

“E eis que uma voz, vinda do céu dizia: esse é o meu filho predileto, no qual encontro toda minha satisfação” (Mt III; 17). Neste momento, é confirmado todo o testemunho de São João Batista e se revela a profundidade da Verdade que há em Jesus: Ele é o messias, o filho amado do Pai, o Logos Encarnado.

Ou, como muito bem nos ensina o finado Papa João Paulo II, em seu livro SOBRE O ESPÍRITO SANTO NA VIDA DA IGREJA E DO MUNDO, no Jordão ocorreu a teofania trinitária que exalta o Cristo, é a “revelação do Pai e do Filho, unidos no Espírito Santo. [...] Jesus de Nazaré manifesta-se também a si mesmo o seu ‘eu’ divino: ele é efetivamente o Filho ‘da mesma substância’ (consubstancial); e, por isso, ‘ninguém conhece quem é o filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho’, o Filho que ‘por nós, homens, e para nossa salvação’ se fez homem, ‘por obra do Espírito Santo’ e nasceu de uma virgem, cujo nome é Maria”.

E mais! É interessante observarmos que é a Verdade, o caminho para a Verdade e o Espírito da Verdade que descem até nós para nos libertar da ilusão e dos enganos do pecado e, desde modo, para nos apresentar a realidade da humana condição. Todavia, a postura do homem moderno é totalmente avessa a essa que nos é apresentada por esse mistério.

O que fazemos então, ordinariamente, em nossa vida? Não procuramos perseverar na procura pela verdade em meio ao deserto das opiniões reinantes, não procuramos lavar a nossa alma nas águas da sinceridade para melhor receber a chama vivificante da Verdade? Não mesmo. Se ao menos formos realmente sinceros no momento da leitura desta simplória carta, perceberemos com grande facilidade o quanto somos prepotentes e arrogantes diante da realidade, o quanto o orgulho toma conta de nossa alma nos cegando para as verdades mais elementares sobre a nossa parva condição.

Gostemos ou não, a cena do rio Jordão está marcada em nossa alma através do nosso batismo e a partir dele deveríamos, todos os dias, relembrar que foi em um gesto de humildade que se deu o maior exemplo de coragem que nos foi ensinado e que, até os dias de hoje, a grande maioria não compreendeu com a devida clareza por, orgulhosamente, não ter dedicado a necessário importância para a Verdade que se revelou para nos libertar de nossas pérfidas ilusões que afetuosamente chamamos de nossas opiniões, nossos gostos, nossa vontade, mesmo que essas “nossas” sejam muito mais do mundo do que nós queiramos imaginar.

As águas que descem e que são derramadas por aquele que é agraciado por Deus aí estão, vivas e diante de nós, para que seja feita a justiça em nossa alma dando-nos a medida do Real que nos é devida que será mensurada pela medida de nossa sinceridade que é o óleo que mantém acesa a lamparina da Verdade em nosso ser. E, como nos ensina Madre Teresa de Calcutá: "Para manter uma luz acesa é preciso estar constantemente colocando óleo nela."

Por isso, sejamos sinceros para conosco mesmo e assim, desde modo, podermos sinceramente nos apresentar diante Daquele que É, diante da Verdade que tudo revelará sobre nós, principalmente aquilo que, agora, nesta vida, nos recusamos a conhecer.

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