MEDITAÇÕES SOBRE A MORTE

Escrevinhação n. 787, redigido em 13 de outubro de 2009, dia de São Daniel e companheiros, 28ª Semana do Tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Se há um tema central na vida humana e que merece a máxima atenção e seriedade é a morte. Para tanto é fundamental que nos reconciliemos com a sua existência e com a sua presença em nossa vida, pois, ela não é um bicho papão a ser temido e evitado, mas sim e tão somente, um fato inevitável da existência humana neste Vale de Lágrimas que nos abre passagem para a Vida.
Os primeiros Cristãos usavam a expressão dies natalis – dia do nascimento – para se referir ao dia de sua morte ou de um ente querido. Expressão essa muitíssimo semelhante a que é utilizada por um senhor, pai de um amigo meu, que dizia que a cada aniversário que ele comemorava, não estava ficando mais velho e sim, mais jovem. E é claro que todos perguntam sempre pra ele o porquê dessa afirmação. Simples: dependo do que você espera de sua morte e do que você planeja em sua existência para a sua Vida Eterna.

Por essa razão que o padre Gaston Courtois nos ensina que o sentido Cristão da morte deve ser meditado a partir de três indagações: (i) a morte é um novo nascimento; (ii) a morte fixa o ser humano na sua orientação definitiva e (iii) a morte, reunida a de Jesus, associa-nos aos esplendores da Redenção. Bem, quanto ao primeiro ponto sugerido pelo Pe. Courtois, cremos que já esteja razoavelmente claro para todo aquele que não duvida deste elemento constitutivo da estrutura da realidade que é a eternidade do Ser. Somente um tolo crê que tudo existe ao acaso e que ao acaso findará.

Todavia, o segundo ponto nos apresenta uma gama significativa de ponderações quanto ao sentido de nossa existência e de nossa natureza. É no momento do nosso nascimento que é determinado as potencialidades que poderemos realizar em nossa existência, é no dia de nosso nascimento que temos diante de nossas vistas apresentadas as nossas possibilidades de realização enquanto filhos de Deus que poderão ser realizadas no correr de nossos dias por esse mundo. Porém, é no dia de nossa morte que fixamos o que seremos eternamente a partir do que nós realizamos no correr de nossos dias nesta vida, do que nós fizemos com as potencialidades que nos foram confiadas por Aquele que É quando nascemos.

É na morte, quando findamos nossa obra como pessoa que estamos com o resultado do que nos tornarmos, com o fruto de nossa existência para apresentar diante do Criador. E é nesse momento que se resume o sentido de nossa vida. É nesse instante que se realiza a plenitude e a miséria de nossa existência.

Que tipo de vida vivemos? Como serei lembrado pelos meus familiares? Como serei lembrado pelos justos? Como me apresentarei diante de Deus, desnudo, sem os títulos e as pontas deste mundo? A única coisa que restará serão os tesouros que acumulamos nos Céus, os tesouros espirituais que cultivamos em nossa alma no correr dos dias e aí, você pode perguntar-se: o quanto de minha vida dedico, sinceramente e realmente, a tal intento? O quanto dedicamos de nossa existência para construção de nossa vida eterna?

Por isso é tão importante nos reconciliarmos com a morte, com a nossa morte. Por mais que o mundo moderno venda a ilusão de uma juventude eterna, de uma saúde imensurável, de uma longevidade incalculável, nós iremos morrer e nossa eternidade refletirá o que vivemos aqui, neste mundo, gostemos ou não desta realidade auto-evidente para aqueles que não são cegos para as realidades perenes.

Meditando sobre esse mistério da Vida, que é a morte, aprendemos mais e mais a compreendermos o Caminho, a Verdade e a Vida que nos são revelados pelo Cordeiro de Deus, pelo Verbo Encarnado. Aprendendo a aceitar essa realidade, aprendemos a aceitar e a compreender a Realidade e o sentido de nossa vida. Realidade e sentido esses que são pessoais e que nos são revelados pessoal e misteriosamente por Deus e a aceitar e compreender esse sentido é algo que cabe a cada um de nós, aceitar ou não.

Amar em demasia essa existência é trocar o que há de permanente e luminoso por tudo que é meramente volúvel e transitório, que se consome gradativamente a si mesmo. Ou alguém tem alguma duvida de que tudo que há nesta vida seja pó? Entretanto, nos desapegando desta existência fugas, nós a sacrificamos em nome Daquele que É, tal qual o Seu Filho Unigênito nos ensinou. Sacrificando nosso amor as futilidades, grandes ou pequenas, desta vida, aprendemos a reparar os ódios que cultivamos, a corrigir as várias facetas dos egoísmos individuais e coletivos que cultivamos no âmago de nosso ser e procedendo assim, aprendermos, de um modo Cristão, a morrer.

E procedendo assim, na hora da morte o Cristão torna-se verdadeiramente “Hóstia”, unindo-se com a Vítima do Calvário pela salvação das almas que, diante de seu sacrifício, aprendam o que há milênios o Cordeiro de Deus está nos ensinando com Sua morte: a aprendermos a viver para sabermos dignamente morrer para este mundo e nascermos para o Reino de Deus.

E, como tudo em nossa vida, a edificação deste projeto depende, exclusivamente, de nosso livre-arbítrio, das escolhas que fazemos hoje e no correr de todos os dias de nossa vida até o dia de nossa morte.

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