A DEUSA DO SACRIFÍCIO

Escrevinhação n. 776, redigida em 24 de agosto de 2009, dia de São Bartolomeu Apóstolo e de Santa Joana Antida Thouret.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Uma revolução é uma opinião apoiada por baionetas". (Napoleão Bonaparte)
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Ao abrirmos um livro de história, em especial aqueles que são destinados a (de)formação das tenras almas, a palavra revolução sempre é apresentada como sendo uma espécie de fenômeno epifânico, como se essa palavra, por si, evocasse o que há de mais elevado na alma humana. Tal observação não apenas é um ledo engano. É, antes de qualquer coisa, uma cínica distorção fortemente presente no imaginário moderno.

Para visualizarmos o que estamos apontando, volvamos as meninas de nossas vistas para o modelo arquetípico de todas as revoluções, a Revolução Francesa. Em regra, o referido acontecimento histórico se faz presente nas laudas dos livros da referida disciplina, como sendo um significativo avanço para o povo francês e, é claro, para toda humanidade. Mas será mesmo? Em que medida isso é plausível de ser ensinado como algo razoável?

Pra começo de prosa, se avaliarmos a situação política interna da França após a queda da Bastilha, perceberemos que essa nação levou praticamente um século para poder novamente retornar a estabilidade de um Estado de Direito. Aliás, em aproximadamente uma centúria, a França experimentou treze constituições (vide: J. O. Meira Penna, “O Espírito das Revoluções”), tamanho o caos político que se instaurou no país. Neste entrevero que durou tantas luas, todos acreditavam poder transformar este país em algo melhor desde que tivessem uma maior concentração de poder em suas mãos e não fossem importunados pelos seus adversários, obviamente.

Nestes idos revolucionários que tanto inspiram as almas modernas com seus ares plúmbeos, a perseguição religiosa era algo que chegava as raias do martírio. Não de modo similar ao que havia nos idos dos primeiros séculos da Cristandade, mas ampliado de maneira significativa. Igrejas e cemitérios eram profanados, seminários e conventos incendiados, freis, freiras, monges, religiosos e clérigos de um modo geral, humilhados, torturados e mortos de maneira brutal. Este meu amigo, era o cenário que estava por traz das encenações das glórias da Revolução.

Cabe destacar que tais perseguições não se davam tão só pelo fato de o Alto Clero possuir algumas vantagens no Antigo Regime, mas sim, pelo caráter anticristão, declarado, dos revolucionários. Tanto era que seus líderes desejavam acabar com todos os vestígios dos ensinamentos Cristãos, conforme os projetos e discursos de Maximilian de Robespierre que, próximo ao final de sua vida, apresentou-se em uma parada cívica como sendo o “Grande Ser” (divindade da nova “religião” criada por ele para criar o “cidadão da nova sociedade nascente”).

Era esse tipo de gente que queria, e quer, transformar o mundo em algo melhor, mesmo que os indivíduos proponentes de tal transformação não sejam assim pessoas tão melhores que o mundo que elas desejam destruir. Ops., digo, revolucionar.

Além disso, meus caros, não é demais lembrar que muitos desses religiosos que eram perseguidos pelos “bondosos” e “generosos” revolucionários eram pessoas que mantinham escolas para crianças pobres, orfanatos e casas para recuperação de enfermos. E isso já era motivo mais do que suficiente para essas pessoas serem denunciadas, perseguidas, torturadas e condenadas à morte por guilhotina (ou qualquer outro requinte de bondade revolucionária). Um caso exemplar do que estamos falando é o da Santa Joana Antida Thouret que vivenciou na carne o clima de terror que imperava na França destes idos.

Em si falando da guilhotina, falemos um pouco do clima assassino que imperava nestas terras no período mais ufanado deste fenômeno político, que é o Período do Terror, época em que os Jacobinos estavam a frente do poder na França Revolucionária. Nesta época, cerca de 40.000 pessoas foram executadas na guilhotina (legítimos espetáculos de horror) e 10.000 foram afogadas no Rio Loire.

E o angu não parou por aí não meus caros. Segundo François Furet, neste período: “Foram cortadas às árvores, queimadas as aldeias, exterminado o gado, massacradas indistintamente as populações. Ocorreu um verdadeiro delírio de destruição que assolou o patrimônio agrícola e imobiliário, deixando mais de 100 mil mortos pelos povoados, aldeias e lugares com nomes singulares que a soldadesca encontrava em seu caminho”. Isso tudo, meus caros, ocorreu apenas entre fevereiro e maio de 1794. É mole ou quer mais?

Olha, se formos comparar o números de vidas ceifadas apenas no correr da gloriosa República Jacobina, com, por exemplo, o número de vidas que foram executadas pela famigerada Inquisição Espanhola ficaremos escandalizados. Isso mesmo, o Santo Ofício em terras espanholas condenou a morte, no correr de quatro séculos, cinqüenta mil pessoas, enquanto a gloriosa revolução matou em dezesseis meses cento e cinqüenta mil seres humanos (sem contar os mortos em combate).

Por fim, vejam só como são as coisas: tudo é possível em nome da revolução, essa deusa maldita sedenta por sangue humano, bebido por ela em seu profano altar secular. Pena que isso não seja assim tão claro nas mentes que se auto-proclamam criticamente iluminadas.

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