DA AUTO-CONTRADIÇÃO REINANTE

Escrevinhação n. 771, redigida em 25 de julho de 2009, dia de São Tiago (o Maior) Apóstolo e São Cristóvão.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"É impossível calcular o dano moral, se é que posso chamá-lo assim, que a mentira mental tem causado na sociedade". (Thomas Paine)
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Certa feita, em conversa com um amigo de longa data, foi-me feito, nos termos que seguem, um relato sobre um determinado ocorrido que, diga-se de passagem, ilustra de modo significativo a crise pela qual passa nossa sociedade. Contava-me que ele havia sido convido para participar de uma reunião que tinha por intento auxiliar os professores da educação básica no que tange à disciplina de “Ensino Religioso”.

Obviamente que todas as lideranças religiosas não conseguiram chegar a um denominador comum. Um pastor sugeriu o uso da Sagrada Escritura (boa sugestão). Um padre reprovou tal uso em escolas, pois, no seu entendimento, a Bíblia é “uma arma” (infeliz colocação). Outros, intoxicados com o trololó politicamente-correto afirmavam que a Bíblia não poderia ser usada em sala de aula para não ofender os alunos que fossem de outra Confissão Tradicional, ou de alguma Seita, ou de coisa alguma (sem comentários).

Bem, estavam todos preocupadíssimos com questões secundárias e, por isso mesmo, acabaram por esquecer a motivação que os havia trazido para aquele local que, segundo meu bom amigo, era auxiliar os educadores com a disciplina de “Ensino Religioso”, para que eles pudessem edificar de forma mais consistente e significativa a aprendizagem e vivência de valores morais que elevem os infantes em dignidade.

Todavia, meu bom amigo, também restringiu o problema em seu colóquio, limitando suas observações unicamente ao ocorrido em si, sem procurar refletir sobre o lugar dessa situação dentro de um contexto mais amplo que é o cenário degenerado da cultura e da educação de nosso país nos dias hodiernos.

Ora, de que adiante ministrar para os pequenos uma imensa bagagem de educação moral sendo que no correr de sua caminhada, da educação básica até o ensino superior, lhe será ensinado que todos esses valores, apresentados como válidos e universais num primeiro momento, são relativos e subjetivos? Qual a validade de, em um primeiro momento, apresentarmos de maneira sutil algumas Verdades elementares sendo que no correr dos anos lhe envenenaremos a alma com todo o pérfido licor do relativismo moral e do materialismo filosófico disfarçado de educação crítica? Isso sem falar no constante bombardeio midiático de informações sem significado substancial para a sua formação e das imagens que edificam, na alma humana, uma perspectiva niilista sobre a vida.

É por isso que toda a discussão apontada no começo dessa missiva não passa de colóquio flácido, por mais bem intencionado que fosse, pois, não toca na ferida fétida que todos se negam a enxergar. Ou, ao menos, fingem não enxergar, como já é típico em nossa sociedade desde os idos de Machado de Assis.

Vejam bem. Lá está um amontoado de sujeitos discutindo o que não se deve ensinar e não o que realmente deve ser ensinado. Ou seja, nos preocupamos muito mais em negar o razoável do que aceitá-lo. Aliás, impressão que se tem é que todos esses indivíduos que estavam reunidos nunca pararam para pensar que todo o valor moral (não usos hipócritas desses) tem uma fundamentação direta na estrutura da realidade.

Ora raios! Digam-me uma coisa: o que há de equivocado, de errôneo, em ensinar que uma pessoa deve amar a Verdade (Deus) acima de todas as coisas? O que há de equivocado em ensinar que um filho deve honrar o seu pai e sua mãe? Sem mais delongas, em que tais ensinamentos ferem a diversidade das manifestações religiosas que, por sua deixa, ensinam o mesmo com um aparato ritual e simbólico diverso do Cristão? De mais a mais, qual o problema de ensinar os valores Cristãos em uma sociedade onde a sua população é majoritariamente Cristã?

O problema está justamente na dolosa impregnação do vocabulário politicamente-correto e na maciça influência do relativismo moral que acaba por paralisar a capacidade dos indivíduos de perceber a própria presença da Verdade da realidade que se afigura diante de suas vistas.

Vamos supor, que os sujeitos que se fizeram presentes nessa reunião tivessem sugerido o ensino do bom-senso moral e que os professores adotassem tal orientação na dita disciplina. Isso resolveria o problema da indolência dos infantes?

É lógico que não. De que adiante as heróicas professoras das séries iniciais ensinarem as Verdades morais elementares sendo que no decorrer de sua educação formal o garoto será bombardeado com toda ordem de doutrinas relativistas e materialistas dissolvidas sutilmente nos conteúdos das mais variadas disciplinas (em especial nas da seara de humanas, que conheço modestamente).

A professora nas séries iniciais pode até ensinar para os garotos, através de fábulas, contos e parábolas, que existem certos valores que são verdadeiros por serem universais e por corresponderem à estrutura da realidade, porém, quando esse avançar através das séries de sua educação formal lhe será martelado, direta e indiretamente, que tudo é relativo, que tudo é uma questão de um reles ponto de vista subjetivo e nada mais.

Atacar esse ponto é o elemento basilar para que realmente nossa geração deixe de se portar como uma horda de sicofantas desfibrados e passe a agir de modo realista diante dos problemas que se apresentam diante de nossas ventas. É fundamental que enfrentemos esse cenário que é a doutrinação relativista, materialista e niilista que inunda a educação hodierna para que, as gerações vindouras não olhem para a imagem de nossa época com vergonha.

Se você, sinceramente, deseja isso, não porte-se como um hipócrita que sai atirando para todos os lados acusando Deus e o mundo pelo que se desenhou. Entenda primeiramente o problema e combata-o em sua alma nos responsabilizando pelo aprimoramento do belo pusilânime pedante que nos tornamos para que se possa, de fato, ser feito algo que seja efetivamente válido pela geração infante que está sob nossa responsabilidade.

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