VERITATEM FACIENTES IN CARITATE

Escrevinhação 763, redigida em 09 de junho de 2009, dia de Santo Efrém e do Bem-aventurado José de Anchieta, 10ª Semana do tempo Comum.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"Uma consciência pura ri da calúnia mentirosa". (Ovídio)
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Uma das coisas mais engraçadas que visualizamos na sociedade hodierna é a reivindicação que muitos indivíduos fazem em defesa de seu “direito” de proferir pseudo-críticas sobre todo e qualquer assunto e, principalmente, sobre a Santa Madre Igreja e todas as religiões Tradicionais. Com esse ato eles reivindicam o seu sacrossanto direito a agir como um “livre-pensador” ou coisa do gênero.

E coitado daquele que ousa defender os umbrais da Tradição. Mais do que depressa os defensores do tal do “livre-pensamento” (que só é livre se concordar com eles) aparecem com aquele velho trololó de que esses defensores da tradição são retrógrados, arcaicos e pior, não são capazes de pensar com suas próprias cabeças! São dependentes dos ensinamentos da Tradição que lhes foi legada e que eles, desesperadamente, procuram defender como se esses ensinamentos reacionários fossem um grande tesouro.

Bem, pra começo de prosa, realmente, todas as grandes tradições religiosas são sim, um grande tesouro. Aliás, um tesouro inestimável. Somente a existência delas, em si, é um estupendo milagre. Somente imaginar esses edifícios de sabedoria que são as doutrinas junto com seu panteão de homens e mulheres retos e santos é algo estupendo. Agora, saber que tudo isso realmente existe e que resiste ao tempo e as agressões incessantes dos mundanos séculos e o mais maravilhoso ainda. Saber que tudo isso pode integrar a nossa alma através do ato de conhecer, que a conquista desse legado pode ampliar o nosso horizonte de consciência é, definitivamente, uma manifestação da infinita misericórdia Divina. Aliás, você já parou para pensar por essa simplória perspectiva?

Quanto ao pensamento dito independente, confesso que me dá até vergonha de tecer qualquer palavra a respeito. Não porque os indivíduos que se auto-nomeiam assim estejam cobertos de razão, não mesmo. Envergonho-me de ter que chamar a atenção destes para a envergadura da trave que obstrui as suas vistas. Mas já que estamos no meio do entrevero, que assim seja.

Meu caro, não existe essa chorumela de pensamento independente como vocês proclamam e, em especial, do jeitinho que vocês orgulhosamente proclamam. F. Hayek, tanto em sua obra Direito, Legislação e Liberdade como em Fundamentos da Liberdade nos lembra que devemos muito do que somos e do poderemos nos tornar ao compacto de experiências acumuladas que nós chamamos de tradição e não a reles esquemas abstratos que podem ser elaborados por um e outro indivíduo que se julgam superiores a toda a humanidade somente porque não concordam com ela ou porque não foram minimamente capazes de dignamente se humanizar.

Na maioria das vezes esses indivíduos que se auto-proclamam livres pensadores se esquecem (ou fingem não saber) que toda tradição não é um monólito estático que não se altera com o tempo, mas sim, um aglomerado dinâmico que carrega em seu âmago uma densa herança de experiências e ensinamentos. Experiências e ensinamentos que permitiram o nascimento do que há de melhor na sociedade, mesmo a contragosto de muitos, como eles, que imaginam poder fazer algo melhor sem saber o que é o “algo” que eles querem mudar e muito menos no que, exatamente, eles pretendem mudar. Esses são os intelectuais e militantes revolucionários e reformistas.

Doravante, uma coisa que praticamente todos desdenham é que todas as tradições religiosas sempre foram combatidas pelas forças seculares e todas as vezes que essas forças se aproximaram delas, foi para corrompê-las. A história da Igreja, por exemplo, é a história da luta dos Santos pela preservação dos ensinamentos de Nosso Senhor através de seu testemunho de fé e de sua luta contra o mundo exterior e, principalmente, pela construção sólida do mundo interior. Para entender isso basta que o “livre-pensador” conheça a vida de um Santo Inácio de Loyola e a obra de um Santo Afonso de Ligório e de um Santo Agostinho que são testemunhos claros do que estamos falando. Mas é preciso conhecer para compreender, meu caro.

E o que é mais engraçado nisso tudo é a boçalidade desses indivíduos, críticos, que com uma credulidade pueril acreditam que toda a verbarrogia que é vomitada de suas bocas seja algo de sua total originalidade em seu achismo incontido sobre tudo. Por essa razão de Rama Coomaraswamy, com grande sarcasmo lembrava em seu ensaio Antiguas creencias o modernas supersticiones - la busqueda de la autenticidad, que não há seres humanos mais supersticiosos e crédulos que os modernos.

Perguntava ele, de maneira jocosa, como é possível para uma pessoa que é bombardeada, o tempo todo, de maneira direta e indireta, por informações que, em regra, não são devidamente meditadas e investigadas, poder chamar para si um título tão descabido como o de “pensador independente”? Como pode uma geração criada por uma máquina torpe como a televisão, gentilmente chamada de segundo pai, ser melhor do que as que nos antecederam? Segundo pai esse que nem os pais biológicos conhecem direito e declaram o tempo todo que desconfiam dele, porém, mesmo assim, lhes confiam a tutela praticamente integral de seus infantes. Ou vão me dizer que não é assim?

Mas isso não é a pior das superstições modernas não. Degradante mesmo é vermos uma sociedade que vira as costas para tudo aquilo que nos lembra a transcendência da alma humana. Transcender o mundo material é uma característica fundamental da vida humana que, em regra, é desdenhada pela sociedade atual que procura explicar tudo por um viés meramente materialista-hedonista. E depois, meus caros, ninguém entende porque o mundo está do jeito que está, não é mesmo?

De mais a mais, saber de onde viemos é o elemento primeiro que caracteriza a maturidade. Conhecer e meditar sobre sua herança imaterial (tradição) é o degrau maior para o crescimento de nosso ser. Nega-la é literalmente se entregar a gradativa infantilização, onde o indivíduo por desconhecer sua herança imaterial, não passa a descrer de tudo, mas sim, a acreditar em qualquer coisa que lhe pareça agradável ou simplesmente “legal”. Assim se compreende, tranqüilamente, porque um filme como Anjos e Demônios é capaz de fazer tanto sucesso. As pessoas não sabem ao certo se tudo aquilo é uma farsa de mau gosto ou não, isso pouco importa. O que interessa é saber se é ou não é “legal”.

Por isso, meus caros, que conforme o título de dessa missiva, devemos procurar realizar a verdade na caridade, no amor pelo que nos foi legado por aqueles que já partiram e com vistas a cultivar essa herança para que ela possa florescer e dar bons frutos na geração que virá. Negar isso tudo ao indivíduo é abandoná-lo em uma geada niilista sem agasalho para que ele, livremente, possa inventar uma nova veste para agasalhar e proteger sua alma.

E é só.

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