NÃO ME VENHA COM FIRULAS – parte III

Escrevinhação n.º 759, redigida em 13 de maio de 2009, quinta Semana da Páscoa, dia de Nossa Senhora de Fátima e Santa Maria Domenica Mazzarello.

Por Dartagnan da Silva Zanela

"A dignidade é medida pela categoria do amor”. (Papa João Paulo II)
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Nada é mais degradante para o indivíduo e, conseqüentemente, para toda uma sociedade, do que procurar se auto-explicar basicamente por um viés materialista, como muito bem nos explica F. Schuon e R. Guénon. Aliás, essa, a civilização Ocidental Moderna, é a primeira de toda história da humanidade que fundamenta a explicação do sentido de sua existência por uma via desse gênero. Mas, por que tal cosmovisão seria assim tão degradante para o indivíduo e para a sociedade em que ele está inserido? Eis aí uma pergunta que não deve ser calada de modo algum.

Quando pensamos a natureza humana, devemos procurar apontar notas que a caracterize enquanto tal e nos diferencie das demais criaturas que existem. Dito isso, a primeira resposta que vem a mente de um homem moderno é a procura pela sobrevivência, visto que, o nosso horizonte de consciência vê-se restrito a uma perspectiva materialista, sejamos cônscios ou não disso.

Um exemplo cabal dessa visão encontra-se na obra de Sigmund Freud, onde o mesmo afirmava que se o ser humano fosse colocado em uma situação de penúria extrema, onde ele ficasse apartado das referências civilizacionais, esse retornaria a um estado de bestialidade, ou seja, se desumanizaria.

Bem, um exemplo dessa redução das condições de sobrevivência foram os campos de concentração da Alemanha Nacional Socialista. Um exemplo que, em regra, nega toda essa crença espúria de que o ser humano é movido basicamente por interesses econômicos, que ele se preocupa basilarmente com a sua sobrevivência.

Sobre esse estrato dos infernos, o psicólogo Victor Emil Frankl nos relata literalmente uma visão oposta do que era explicado pelo senhor Freud. Diz-nos ele que quando as pessoas se encontravam nos Campos de Concentração, pessoas essas que, até então, tinham até mesmo uma vida vulgar e vazia de sentido acabavam dando demonstrações de dignidade singular, similares a atitudes de um legítimo herói ou Santo. Faziam isso, não porque estavam preocupados com a sua sobrevivência, mas sim, porque acreditavam que não era a sua sobrevivência que iria dignificar a sua pessoa, mas sim, algo que transcendia todo aquele cenário degradado, pois eles acreditavam que havia algo maior do que eles, maior do que tudo aquilo que eles estavam vivendo. E detalhe: Frankl não teorizou tudo isso em um gabinete confortável como o fez o senhor Freud. Frankl foi prisioneiro de Campos de Concentração por aproximadamente quatro anos vivendo e testemunhando essa realidade humana durante todo esse tempo.

Por essa razão de que afirmamos que tentar explicar o que é o ser humano a partir de uma base materialista não é apenas apresentar uma “explicação” falseada, mas sim, reduzir o ser humano a condição animal. Quem se preocupa basicamente com a sua sobrevivência são os animais e procurar explicar o que é o ser humano a partir dessa matriz é literalmente brutalizar o que somos.

Não estamos afirmando que não há em nós um impulso por essa preocupação, mas sim, chamando atenção para o fato de que essa nota não é a que nos caracteriza enquanto humanos, enquanto seres distintos das bestas.

Que existe seres humanos que agem como animais, que pensam unicamente em seus interesses e nos de seu bando, que são capazes de humilhar e mesmo destruir com a vida de outros seres humanos para poder garantir a sua posição como “macho alfa dominante” não tenho a menor dúvida. Do mesmo modo que também não tenho a menor dúvida de que esses indivíduos não são de modo algum os melhores representantes do que significa ser humano plenamente realizado em sua humanidade.

Pessoas assim, não são uma boa medida da dignidade humana. São sim, uma boa medida da iniqüidade humana. Procurar analisar as ações humanas por essa medida iníqua é reduzir o nosso horizonte de consciência para uma medida animalesca, tal qual nós vemos em nosso sistema educacional hodierno onde as figuras mais representativas do que significa ser humano são facínoras como Guevara, Fidel, Stálin, Marx, Gramsci, Chávez e tutti quanti que, em regra, são apresentados como as melhores expressões do gênero humano.

Ora, que tipo de valores uma sociedade é capaz de edificar a partir de medidas como essas? A pergunta é simples, porém a procura pela resposta apropriada é muito séria. Se nós ensinamos a nossos mancebos que tudo que há na vida é rancor de uma parte e egoísmo da outra, que tudo que existe é insatisfação de um lado e luxúria do outro, qual será a medida que as jovens gerações vão edificar de si? Olha, no mínimo (e no melhor dos casos) pessimista e hedonista.

Por fim, poderíamos indagar por que em nossa sociedade se reduz literalmente a esse nível a medida do que significa ser humano? Bem, francamente creio que seja porque no fundo, somos uma sociedade de pessoas desfibradas e medíocres que não suportam a apresentação de uma medida superior a nossa pequenez existencial. Somos uma sociedade que deseja negá-la e mesmo destruí-la para que possamos viver mais tranquilamente em nossa alcova degradante onde a coisa mais digna que conseguimos visualizar é uma carreira exitosa e nada mais.

Fora desta perspectiva, não somos capazes de pensar a vida humana e, por essa razão que somos incapazes de imaginar a possibilidade da existência de um Santo ou de um herói. Não que eles não existam, mas sim, porque não queremos que eles existam para não nos incomodem em nosso processo de bestialização civilizacional.

E é isso.

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