MASTURBAÇÃO INTELECTUAL

Escrevinhação n.º 760, redigida em 19 de maio de 2009, dia de São Pedro Celestino, sexta semana da Páscoa.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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Em sua obra Em berço esplêndido o embaixador José Osvaldo de Meira Penna nos aponta uma marca indefectível de nossa sociedade que é pouca inclinação para o silêncio meditativo e bem como para os longos e árduos estudos. Todavia, na mesma proporção de repudiamos a dedicação ao soturno exercício do estudo silencioso e abnegado, nutrimos uma forte inclinação ao falar, falar, falar, sem necessariamente nada dizer de substantivo.

Tal prática não se vê presente de maneira marcante entre as pessoas pouco letradas, não mesmo. Na verdade, se formos meditar com a merecida sinceridade perceberemos que são justamente as pessoas travestidas de “doutas”, ou de “entendidas”, ou simplesmente de “cidadãos”, que mais facilmente se entregam aos deleites das conversas vazias elegantemente preocupadas com os problemas do Brasil e do mundo sem colocar-se, obviamente, como parte integrante do problema, porque eles são a grande solução, é claro.

Aliás, o Brasil e o mundo estão do jeito que estão não porque somos seres imperfeitos e dados a nos acomodar em nossa imperfeição, mas sim, porque os líderes mundiais e as pessoas de um modo geral não ouviram e muito menos acataram as nossas sapienciais considerações sobre tudo e todos. Trocando em miúdos, o mundo atual, mais do que nunca, está cheio de pessoas iluminadas com boas intenções e idéias colossais para melhorar o mundo sem melhorar as pessoas que, como eles, crêem que não precisam melhorar para se realizar como pessoa humana.

Quantas e quantas vezes dedicamos uma quantidade considerável de nossa energia e tempo em um trololó enfadonho e cansativo que se, devidamente ponderado, não nos auxilia em nosso crescimento, mas sim, e muito, na reafirmação das convicções coletivas que sorrateiramente gritam em nossa alma para que continuemos a seguir os mesmos passos turvos, continuando a apontar para os males do mundo e desdenhando as máculas putrefazes que infectam a nossa alma.

Se estivermos equivocados em nossas considerações, então nos indaguemos, com sinceridade, sobre as seguintes questões: quantas e quantas vezes nós afirmamos determinadas crenças (opiniões) não por estarmos cônscios delas, mas sim, para parecermos pessoas boas e assim, agradarmos a maioria que comunga delas? Quantas e quantas vezes preferimos mudar drasticamente nossa maneira de agir e pensar simplesmente para podermos nos enquadrar adequadamente dentro dos valores que são ditos como uma espécie de símbolo de “pessoa culta e esclarecida”? Quantas?

Com toda certeza foram muitas. Mas, em quantas ocasiões nós afirmamos algo verdadeiro, algo que arrebata as nossas convicções mais íntimas frente a uma multidão bestializada pelo coletivismo padronizado pela imbecilização coletiva correndo o risco de, no mínimo, ser enxovalhado? Provavelmente, muito poucas, não é mesmo?

Tal tramóia habita o íntimo de nossa alma justamente devido ao nosso desfibramento intelectual e moral, advindo de a nossa covardia de procurar a Verdade e de dizê-la, preferindo tapar a majestade do Sol com a peneira da dissimulação e do fingimento congênito. E não há nada mais prejudicial à alma humana do que isso. Inexiste algo que desgrace mais a nossa inteligência do que viver assim, visto que, se nos habituamos a nos esquivar da Verdade, gradativamente, nos tornamos incapazes de reconhecê-la. De tanto fingir sobre o que somos e sobre o que realmente estamos vendo, que acabamos acreditando na “realidade” de toda essa nossa macaqueação intelectual.

Indo direto ao ponto do conto, é impossível que nos tornemos pessoas mais dignas, prestativas e boas fundamentando a nossa existência em uma cadeia sem fim de dissimulações de pessoas que não somos, onde afirmamos coisas que desconhecemos parcial ou mesmo totalmente. É impossível uma sociedade que tenha como marca emblemática a lei de Gerson imaginar que, movendo-se com base nesse obtuso dilema ela, a sociedade como um todo, vai elevar-se enquanto coletividade, digna de respeito e admiração, sem que os indivíduos desejem primeiramente mudar as suas vidas para algo que realmente seja digno.

Olha, quer saber. Nem dê pelotas para o que acabamos de dizer. Quem vai dizer que essa sua imagem íntima de preocupação não é mais um fingimento existencialmente assimilado? Quem vai dizer que essa tua indignação para com esse mísero missivista também não o é? Quem? Apenas você e ninguém mais, goste ou não disso. Por isso, continuemos na velha masturbação intelectual e moral que aprendemos em nossas rodas de convívio anti-social e continuemos a negar em nosso íntimo tudo que realmente poderia nos dignificar.

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