O MISTÉRIO COBERTO PELO VÉU

Escrevinhação n. 754, redigida em 21 de abril de 2009, dia de Santo Anselmo e Santo Apolônio, segunda semana da Páscoa.

Por Dartagnan da Silva Zanela

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“Por aqui passava um homem — e como o povo se ria!” Assim entoam-se as atiladas palavras presentes nos versos da magnífica poetisa Cecília Meireles em seu Romanceiro da Inconfidência. Riu-se do finado Joaquim José da Silva Xavier do mesmo modo que se ri e mesmo se enxovalha tudo aquilo que procure transparecer ares altivos de dignidade nestas terras de Pindorama. Não queremos aqui entoar loas em nome do alferes martirizado pela Coroa Portuguesa nem em nome do movimento da Inconfidência Mineira, fracassado e traído desde a casca, não mesmo. Na verdade, nosso intento é mais modesto. Desejamos apenas refletir sobre o significado simbólico deste evento histórico frente a nossa deprimente sociedade republicana hodierna. Nada mais, nada menos que isso.

Pois bem, quando voltamos nossas vistas para as almas brasileiras com suas vozes indignadas de nossa abjeta republica que, de RES PUBLICA, praticamente nada tem, vemos claramente a imagem dos personagens dos contos machadianos. Fingidos e dissimulados até a medula. Bem, lá estão eles reivindicando os direitos disso, os direitos daquele outro, a moralização disso e daquilo e por aí segue o andor. Todavia, no fundo, a grande causa do tormento destas almas sebosas não é esse, mas apenas que eles não estão no meio da lambança ofertada pelos fartos ubres da vaca Estatal.

Na verdade, esses grandes arautos da moralidade pública não estão furiosos com o lamaçal que toma conta de toda a nossa Federação. O que os deixa macedônia da vida é que nenhuma gota deste lamaçal respinga na alva roupa de cidadania fingida deles para que, ao menos, possam se lambuzar com alguns respingos do espetáculo do crescimento da safadeza. Similar aos membros da “Intentona Mineira” que, no fundo, queria tirar o seu da reta, desde o início, excetuado o mártir que tinha apenas seu nome e seu sonho na algibeira.

E mais, meu caro! Cabe lembrar que não estou aqui me referindo a nenhum grupo político em especial não. Quanto a estes senhores e senhoras, faço minhas as palavras de Humberto de Campos que afirma que, em nosso país, os políticos são tal qual a nossa fauna: não há gigantes. Por isso, prefiro me referir a nós, cidadãos anônimos, que nos permitimos ser representados por essas almas acanhadas em dignidade, não porque eles nos enganaram, mas sim, porque eles, infelizmente, partilham dos mesmos valores que dão forma ao corpo de nossa sociedade. Trocando em miúdos: eles são a nossa cara.

Tal qual as pessoas que viviam na época do intento Inconfidente que, para alentar as suas papalvas almas bastou que Dona Maria I que, nesta época, de louca não tinha nada, não decretou a Derrama, dando assim um pequeno e momentâneo alívio fiscal. De modo similar a nossa sociedade hodierna. Basta um benefício fiscal aqui, outro acolá, uma promessa aqui, outra ali, e ninguém mais se preocupa com qualquer outra questão.

Aliás, toda vez que os filhos desta terra de desterrados falam em política a única pauta que se faz presente em suas soturnas conversas são de ordem econômica e imediatista. Qualquer tentativa de discussão que fuja a esta seara é algo praticamente inabarcável para a capacidade intelectiva da massa (depre) cívica brasileira, como se a vida política se resumisse apenas nestas conversas de botequim.

Quando dos referimos as “conversas de botequim” não estamos nos referindo àqueles que não tiveram acesso ao ensino formal não. Estamos nos referindo justamente àqueles que tiveram acesso a dita educação de canudo e simplesmente ficam presos a uma espécie de fetiche de seus diplomas que, em si, não dizem muita coisa além da possibilidade de estarem habilitados para atuar profissionalmente em uma determinada seara.

Entretanto, no tange a responsabilidade de integrarem uma pequena minoria em nosso país, na maioria dos casos, é algo que fica bem distante de seus debates botequinlógicos, bem distante de seu próprio horizonte de consciência, similar a visão de muitos dos privilegiados dos idos do referido movimento que pretendia agitar as paragens de Minas Gerais nos últimos anos do século XVIII.

Por fim, o que quero dizer com esse trololó todo é o seguinte: se realmente desejamos ter uma República de fato, não apenas de nome, vivamos como se deve viver em uma República, não mais como vivemos ordinariamente em nosso país. Tenhamos em vista o senso de responsabilidade, de bem comum, que são os alicerces de uma CIVITAS.

Senso esse que, penso eu, o senhor Da Silva Xavier tinha de sobra e que, creio eu, foi condenado pela Coroa e por todos, justamente por representar isso um republicano no sentido que era auferido pelos romanos que, por coincidência ou não, celebravam a fundação da cidade de Roma também no dia 21 de abril (de 758 a.C).

E não me venham com essa de que nossa sociedade difere do comportamento de nossos representantes. Sejamos francos, é literalmente a cara de um e o focinho do outro. A única diferença é que uns estão entregues a lambança e outros sonhando em estar nela. Pessoas com alma aquilatada como a do Alferes condenado e celebrado como um “Cristo das Multidões” são raras e, via de regra, condenadas ao ostracismo pela massa ignara, diplomada ou não.

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